História Paralela nº 8

whisky2

Glauber – Maranhão

As mãos tremem. Mal consegue segurar o copo. A cada batida nas portas as mãos tremem mais.
Seu pai deve estar orgulhoso de você, Glauber. Ele sempre dizia “Filho, não tenha medo. O medo encolhe as bolas”. Mal sinto minhas bolas agora…
Já mijei e caguei o chão todo do bar. O fedor é sufocante. Três dias enclausurado num boteco, sem dormir, sem comer… Só esperando a hora que essas criaturas malditas vão estourar a porta. A barricada não vai aguentar por mais tempo.
Esses malditos simplesmente brotam. A rua está tomada. Os bastardos de merda me olham pela fresta da janela desejando minha carne. Seus olhos parecem bolas de fogo vindas do inverno, refletindo duas coisas: fúria e fome.
O calor aqui é dentro é infernal. Embora seja dia, mal vejo a luz do sol. Ela está lutando por um espaço na fresta da janela.
Eu devia aproveitar as facas na cozinha e me matar. Acabar logo com essa merda. Por fim nessa agonia…

Calma, Glauber! Entrar em desespero é a pior coisa. No desespero somos pegos de surpresa… Calma? Você não percebe a situação, idiota? Tá vendo aquela porta ali na lateral? Ela não tem chave, não tem trinco… Só uma cadeira safada está encostada na maçaneta. Igual o que você fez nos dois banheiros, Glauber. Percebe a situação? Lá fora tem centenas de “zumbis”, tem mais um em cada banheiro desse boteco imundo e, o que te manteve vivo, esses três dias, foram três cadeiras mal encostadas. Ou você é um filho da puta muito sortudo, ou Deus tem um ódio desgraçado de você pra te deixar nessa situação.

George Romero, seu filho da puta safado. Deve estar se deliciando com essa carnificina sem sentido. Tomara que o inferno lhe dê as glórias de merda, com uma coroa fétida e cheia de espinhos de ferro e que seja bem justa pra rasgar sua carne com louvor. Você não sabe o que é ver uma gestante ser aberta como embalagem de salgadinho. Não sabe como é ver o feto sendo devorado por essas crias do mal. Você nunca vai saber qual a sensação de usar uma grávida como escudo…
Alguns dizem que você foi uma espécie de profeta, pra mim sempre será um louco.

Olha pra você, Glauber. Todo cagado e mijado, jogado no chão. Três dias assim. Sem dormir, de tanto medo. Sem comer, com medo de ir até o balcão e pegar alguma coisa bem gordurosa, só pra sentir o gosto de gordura enchendo a boca. Mas não. Você pegou uma porra de um copo de uísque e não tomou nem um gole. Tá segurando esse copo como alguém segura as próprias bolas depois de um chute. Tá há três dias com esse copo na mão. Você é um merda. Uma menininha chorona. Chorando igual um veadinho… Que belo monte de merda você se tornou. E ainda se achava o ser supremo lecionando história da arte.

Já pensou na família da grávida que você atirou pra esses cães do demônio? Já se perguntou se ela estaria bem agora? Parou pra imaginar se ela faria o mesmo com você? Você é podre, Glauber. Merece morrer. Merece ser esquartejado e jogado no chão pra ser pisado. Nem como comida você serve. É desumano, mesquinho e ainda deu pra falar sozinho… Tomara que tenha uma morte fria e lenta, tomara que alguma dessas cadeiras caia e que você seja trucidado pelo que fez àquela mulher.

Ouviu isso?
Não é sua imaginação. É real.
É, Glauber… Acabou de se foder. Parece que o Diabo te ouviu. A cadeira na maçaneta do banheiro feminino caiu… Onde está seu deus agora?
Você não consegue nem se mexer. É uma vergonha pra humanidade.

Olha pra ela, Glauber. É uma gestante. Que ironia, não? Vai matar essa também? Você tem colhão pra isso? Não. Você é frouxo, mas ela não. Ela te ouviu esse tempo todo. Será que ela tem alguma consciência? Se ela tiver, você vai sofrer mesmo, seu verme imundo.
Olha como ela caminha devagar… O vestido todo rasgado e sujo de vômito. Ela deve ter tentado se comer naquele banheiro fétido. Mas agora ela encontrou você.
Fúria e Fome.

Vai fazer o que? Fugir? Pra onde? Você sequer consegue mover o copo.

- O… Olha, moça… – ‘’Acha que ela está te escutando?’’- Eu… Eu… Eu não fiz por mal… Eu juro. – ‘’Para de chorar e seja homem, porra!’’ – Eu não sabia o que fazer… Tava com medo… Me perdoa.

Fúria e Fome, Glauber. É só o que ela sabe.

Ela tá cada vez mais perto. Não tira os olhos de você.

Que merda de vida sem sentido. Estou prestes a morrer e a única coisa que me vem à cabeça é cantar. E a única música que me vem à cabeça é “Cielito Lindo”.

“Ese lunar que tienes, Cielito Lindo, junto a la boca,
No se lo des a nadie, Cielito Lindo, que a mi me toca,
Ay, ay, ay, ay, canta y no llores,
Porque cantando se alegran,
Cielito Lindo, los corazones.
Ay, ay, ay, ay, canta y no llores,
Porque cantando se alegran,
Cielito Lindo, los corazones.”

Não me lembro do resto da música. Que se foda! Ela já está aqui me olhando e rosnando. Tem um braço todo putrefato saindo da barriga dela. Está se mexendo. E eu aqui, sorrindo como um idiota.
Se tá no inferno, abraça o capeta.

Leonardo Favaretto

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