História Paralela nº 7

mendigos-11

São Paulo – Capital

- Andarilhos, ciganos ou, como eles costumavam nos chamar em ocasiões formais, sem-teto. Meu nome era ninguém, mendigo excluído sem norte e pretensão. Mas aqui entre nós, eles não sabiam de nada. Eis a minha história: Eu tinha um teto novo todos os dias, um norte sem capitalismo e a pretensão de um bebê que dorme no colo da mãe.

 Lembro-me da primeira vez que os vi pessoalmente, de longe… Rápidos, iam deixando um rastro de destruição por onde passavam. O velho galpão do viaduto do chá que servia sopão estava aberto e, junto de mais alguns, fiquei protegido, por sorte ou destino, do farejar daquelas coisas. Passei a noite por ali, encolhido em um canto do pequeno salão filantrópico, mudo, resgatando fragmentos de memórias que a muito havia decidido esquecer.

Foi uma noite longa, daquelas que o sono parece evitar chegar. Mas acabou chegando.

Quando acordei e lentamente abri os olhos, fui golpeado pela claridade estridente da manhã que entrava pela única abertura do lugar. Por incrível que pareça, todos haviam partido sem nem mesmo a decência de fechar a merda da porta…

 Por quanto tempo eu dormi exposto daquele jeito? Realmente não faço ideia, mas o que mais me irritava era o fato de ter sido abandonado ali como se não fizesse diferença. Abandonado por pessoas que eram tão invisíveis quanto eu, miseráveis o mesmo tanto…

Deixando a humilhação de lado, me esgueirei depressa até o canto mais escuro do galpão, perto da porta aberta, e esperei pelo pior. Por um bom tempo fiquei assustado demais para mexer um músculo se quer, sentindo falsa segurança naquela frouxa escuridão…

 O único barulho que eu ouvi durante alguns minutos era meu estomago faminto. Tomei coragem e levantei, com dificuldade, pois minhas pernas estavam dormentes, e fui até a mesa onde a panela de sopa estava estacionada.

Comida fria nunca foi tão boa, pode acreditar.

Munido de uma faca doméstica que encontrei na prateleira, fiz o mesmo que os outros e sai dali. As ruas estavam solitárias e monótonas, bem diferentes do normal. Andei um bocado sem problemas até avistar um deles. Um homem, mais ou menos da minha altura, de roupa social e rosto ensanguentado. Executivo ou gênero parecido. Ele saiu de trás de um Meriva vermelho que estava parado no meio da avenida e veio correndo em minha direção. Quando me dei conta do que estava acontecendo não pude mais correr, pois o maldito já estava muito perto. Com a agilidade de um susto, segurei a pequena faca com força e cravei em seu peito. Ele pareceu quase não sentir, mas isso me deu alguma vantagem. Repeti o mesmo golpe algumas vezes e em lugares diferentes de seu corpo, dessa vez com mais força, sentindo a carne dura sendo perfurada pela lâmina que minhas mãos manuseavam, vendo o sangue escuro escorrer pelos buracos que eram feitos… Enfim ele caiu.

Não caiu pelos golpes, mas pelo peso do meu corpo contra o dele.

 Parti para cima, desferindo mais algumas facadas, dessa vez em sua maldita cabeça. Só parei quando tive certeza que ele não levantaria mais.

É uma sensação inexplicável, sabe? Passei algum tempo tremendo e remoendo o fato de ter matado alguém, mesmo alguém como ele. Liberta ao mesmo tempo em que crucifixa…  Você age por sobrevivência, no ímpeto de passar mais algumas horas por aqui, mesmo que mal e parcamente. Mas de viver mal e parcamente eu entendo bem, né?

Fugi o mais rápido possível, tentando não encarar o cadáver estirado ao chão que aos poucos ia ficando para trás.

Conforme corria, uma sirene gritava em minha mente, tão alta que cheguei a questionar se era apenas imaginação. Era mais que imaginação… Um aviso dos meus instintos, na verdade.

As ruas do centro de São Paulo estavam vazias demais, desertas como uma cidade fantasma. Desde que o caos havia começado, um ou dois dias atrás, isso não havia acontecido. Elas estavam sempre lotadas deles… Algo estava errado, eu podia sentir.

A sirene em minha cabeça me manteve atento. Logo comecei a me pressionar.

Para onde, diabos, eu iria?

O que faria?

A solidão nunca foi tão desesperadora. Apesar de não ter ninguém, sempre tive todo mundo… O barulho dos carros, dos passos, das vozes. A correria do cotidiano era confortável, diria que até mesmo amigável. Mas ali, nada. O ultimo homem racional da Terra.

Pelo menos era o que eu pensava.

O silencio sepulcral foi quebrado pelo trotar da cavalaria. Sem saber de quem e de onde o som vinha, corri com o rabo entre as pernas e me escondi atrás de um pequeno caminhão atolado na calçada. Espiei como pude e presenciei a cena mais gloriosa que já havia visto até aquele momento.

Centenas de homens armados, montados em cavalos fortes e imponentes, seguiam para algum lugar. Um verdadeiro exercito moderno. Aos meus olhos, salvação.

Mas, conforme iam passando, pude reparar em seus rostos. Estavam apavorados.

Se o medo tem um rosto, aqueles homens já o viram.

Apesar de tudo isso, achava que era melhor estar com eles do que só. Eu não iria muito mais longe despreparado como estava. Não queria continuar sozinho. Algo em mim ansiava pela presença humana alheia… Algo primitivo, creio eu. Uma vez li que o homem é um ser sociável, uns mais que os outros, mas ainda assim todos.

Eles estavam fardados, e em sua farda estava o dever de ajudar a população, pelo menos em teoria… E eu era a única população ali, infelizmente.

Mas, durante o tempo em que me perdi com pensamentos, algo maior se aproximou.

Outro grupo de cavalos, maiores e mais fortes, arrastando um tipo de carroça improvisada e, dentro delas, dúzias de corpos.

Não eram dúzias de corpos deles, mas sim de corpos de pessoas saudáveis, como eu. Melhores que eu. Limpas, bem vestidas… Mulheres, crianças, homens e velhos. Todos mortos e amontoados.

Sem salvação.

O por que até hoje não sei, mas não dei a cara para descobrir. Certas coisas não devem ser descobertas, não é mesmo?

Por sorte não me viram. Seguiram em frente, até que o tiroteio começou.

Um coral de gritos masculinos se misturou com o relinchar dos animais e o estrondo das armas. Fiquei confuso por uns instantes, mas logo entendi.

Estavam sendo atacados.

Sai de trás do caminhão e corri, virando na primeira esquina que encontrei.

Corri como se não houvesse amanhã. Na verdade, não acreditava que veria o dia seguinte. 

…Continua.

Fernanda Oz

6 ideias sobre “História Paralela nº 7

  1. “Eu tinha um teto novo todos os dias, um norte sem capitalismo e a pretensão de um bebê que dorme no colo da mãe.”

    genial,muito bom!

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