História paralela nº 7 parte 2 (final)

 

mendigos-11

Parte Dois

As ruas à minha frente estavam vazias. Pude correr sem maiores complicações até perceber que estava novamente no viaduto do chá. Resolvi atravessá-lo.
Parei de correr e tomei ar. Dois dias sem urbanização e o oxigênio já estava diferente, mais leve… Admirei a vista lá do alto.
Magnífica. São Paulo é incrível, mas quase não notamos. Uma selva de concreto.
A paisagem era hipnotizadora. Uma cidade adormecida, pintada por fracos e brilhantes raios de sol.
Lá em baixo, à esquerda, nada. Nenhuma alma pra contar história, mas, pela direita, tomando o mesmo caminho que eu havia tomado, os primeiros fardados começavam a aparecer. Montados nos grandes cavalos que carregavam aquela carroça estranha cheia de cadáveres, eles já não pareciam estar fugindo.
Outros, desmontados, chegaram depois deles. Com uma grande movimentação e alguns gritos de comando, abaixaram o compartimento com os corpos e então fizeram algo que mexeu com a minha cabeça…
De dois em dois, formaram uma fila. Cada dupla pegava um corpo e então o carregavam além da esquina, onde eu não podia ver o que acontecia, mas aos poucos, a circulação foi se acalmando.
Fizeram isso, um a um, até que todos os corpos haviam sido levados.
Tenho sorte por não ter visto o que estavam fazendo com toda aquela gente morta… Minha imaginação já era perturbadora o suficiente.
Sai do transe e corri até o final do viaduto, não fiquei para ver o fim do show…
Sabe, ninguém me tira da cabeça que algo horrível aconteceu ali… O estado daquelas pessoas mortas era saudável demais para estarem contaminadas. Eu acredito, sem maiores expectativas, que foram usados como ‘’isca’’ contra as coisas que os perseguiam… Como um maldito pedaço de carne para um cachorro bravo. Não existe outra explicação, existe?
Eram poucos corpos para formar uma barricada eficiente…
Não cheguei a vê-los, mas pude ouvi-los e senti-los… Estavam lá.
Aliás, o fedor deles pode ser sentido de longe. Uma mistura de mijo e merda cinco vezes mais forte do que no mendigo mais sujo que já conheci.
Seja lá o que os milicos fizeram, parece ter funcionado.
Após mais algumas horinhas andando sem grandes acontecimentos, cheguei a acreditar que as coisas não estavam tão ruins assim, mas como nada que é bom dura muito, eu tive que cruzar aquela maldita rua.
O corpo inerte e seminu daquela mulher, a enorme poça de sangue ao redor de seu quadril e… Prefiro não lembrar…
Eu posso suportar quase tudo nessa vida, mas quando se trata de crianças, eu sou um fraco.
Acredite, aquela cena mexeu comigo por dentro. Naquele momento tive certeza que uma parte importante de mim foi arrancada, e o mundo perdeu o resto de sentido que ainda possuía.
Corri para longe de lá, as lagrimas quentes escorrendo secavam rapidamente com o vento forte que soprava. O sol estava se pondo e as sombras começavam a cair sobre os edifícios.
Procurei por um prédio aparentemente convidativo onde pudesse passar a noite, e acabei escolhendo essa loja de roupas. Era o único lugar que não estava saqueado ou destruído.
A grande porta de vidro estava destrancada, então entrei silenciosamente… Olhos e ouvidos atentos a qualquer sinal de perigo e a amiga faca na mão.
Área de roupas, ok. Balcões, ok. Provadores, ok. Banheiros, ok.
Parei uns segundos para admirar o lugar. Fazia anos que não entrava em lugares como esse… Não somos bem vindos.
Pois bem, tudo limpo na parte de baixo do prédio. Subi o lance de escadas enquanto os últimos raios de luz iluminavam vagamente o local.
No segundo e último andar, um corredor extenso e estreito, com duas portas fechadas na lateral esquerda e quatro janelas abertas na direita.
Grudei a orelha na primeira porta, nenhum barulhinho se quer… Minhas mãos suavam muito, e fui obrigado a seca-las, esfregando-as na calça. Segurei a maçaneta e hesitei uns instantes. Aquilo tudo era muito estranho. Me sentia numa cena de filme, onde o personagem entra em lugares que deveriam permanecer vazios e se depara com o monstro. Era ridiculamente assustador.
Reuni coragem e abri a porta de uma vez, dando um pulo para trás e levantando a faca.
A sala estava vazia. Digo, desabitada. Apenas duas mesas de escritório, com computadores, impressoras e papéis empilhados. Uma cafeteira e um pequeno sofá de couro preto com revistas em cima.
Suspirei aliviado, quando uma pancada na sala ao lado me fez saltar de susto.
Pesei os passos até o corredor e fiquei de frente para a porta trancada que separava a morte de mim.
Meu cérebro trabalhou a todo vapor, enviando muitas informações para o meu corpo e mente, praticamente enlouquecendo-me. Dei um tapa em minha própria cabeça, forçando meus sentidos a se acalmarem.
Eu precisava encarar e resolver o problema, ou então mais deles seriam atraídos até mim.
‘’Vamos lá, você sabe o que tem que fazer! Você consegue. É só abrir a porta e acertar esse filho da puta na cabeça. Você já fez isso antes, lembra? Você consegue!’’
Repeti a frase mentalmente pelo menos dez vezes.
O pânico tentava me dominar e eu estava quase perdendo a luta.
Com a mesma coragem de um suicida, abri a porta com violência e esperei o maldito aparecer.
Vinte segundos pareceram anos, e nada aconteceu.
Foi então que adentrei o recinto, bufando feito um touro e preparado para matar novamente, e vi você.
Deitado no canto ao lado do sofá, encolhido como um tatu-bola.
- Ainda bem que você chegou, pensei que ficaria sozinho pra sempre…
- É, parece que você e eu somos rapazes de sorte, não é mesmo, mocinho?
- Eu não tenho sorte, tio Toni. Eu vou morrer.
- Todos morrerão um dia, André. Uns vão mais cedo que os outros, mas todos terão o mesmo destino final. – Toni segurou a mão do pequeno garoto. Não conseguiu evitar o choro. Conhecia tão pouco aquela criança, apenas dois dias desde que o encontrou, mas sentia-se profundamente ligado a ela. Um pequeno guerreiro, que passou por coisas que ninguém deveria passar, principalmente alguém tão jovem e inocente como ele. Sobreviveu sozinho por quatro noites, e morreria sozinho também, mas agora ele estava ali, e velaria os últimos instantes de André.
- Posso fazer um pedido, como se hoje fosse o meu aniversário?
- É claro que você pode, desde que não seja um bolo… Eu não sei cozinhar – Toni fez o pequeno gargalhar, mas seu corpo estava tão danificado internamente que acabou tossindo sangue.
- Se você contar sua história pra outra pessoa, eu posso fazer parte dela?
Um nó formou-se na garganta do andarilho, e o mundo ao seu redor parecia girar como um daqueles brinquedos de parque de diversão. Queria gritar e amaldiçoar Deus por tamanha crueldade, mas conteve-se.
- Claro… – engasgou ao falar – Claro que pode. – o choro descia inevitável – Você fará parte da minha história, tenha certeza disso, garotão!
André sorriu e imaginou-se na história de Toni, e ficou feliz por isso. Adorava histórias e sempre quis fazer parte de uma. Sonhava em ser um grande escritor um dia.
Encarou o ultimo rosto que veria e fechou os olhos, e então, mais uma vez, Toni estava sozinho.
Sem esperança, sem rumo e sem amparo.
Apenas um ninguém que carregará a vida e a morte nas costas, até sua própria história chegar ao fim.

Fernanda Oz

 

4 ideias sobre “História paralela nº 7 parte 2 (final)

  1. A história é muito fantástica! Fica muito boa quando você vê que se passa em SP, Brasil. Poxa. Muito bom!
    Mas só fiquei com dúvida em uma parte: Por que o garoto estava morrendo? Ele estava sozinho a quatro dias. Mas por que estava morrendo?

    • Obrigada Jônata. Não coloquei o motivo na história propositalmente, mas aqui entre nós, ele estava morrendo pois se acidentou gravemente antes de conseguir se esconder no prédio. Que tipo de acidente fica a seu critério e imaginação ;)

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