Complexo do Alemão

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O tiroteio começou.
O barulho ensurdecedor estremecia Carolina dos pés à cabeça. Sua irmã, Priscila, agarrava Rosa, sua mãe, chorando e gritando. A porta da pequena casa no centro do Complexo do Alemão era esmurrada e empurrada com força. O pai, para proteger a família, correu até o armário da cozinha e armou-se com um facão que costumava usar para cortar a carne dos churrascos de domingo.
- Vão pro quarto! – gritou para a esposa e filhas. As três correram e se abaixaram ao lado da cama.
Gritos e tiros se misturavam em uma sinfonia amedrontadora, mas já conhecida. Um estouro e elas puderam ouvir a porta da casa sendo arrombada. O pai gritou e após alguns segundos tudo tornou-se silencioso. Os olhos de Carolina se encontraram com os da mãe.
- Pai… – ela sussurrou, mas foi interrompida por uma voz que implorava por socorro.
Levantou num pulo e, ignorando as ordens da mãe, caminhou apressadamente até o outro cômodo. Deparou-se com o pai estirado no chão e um homem sobre ele. Havia muito sangue pelo local, a faca que seu pai segurava estava caída perto da porta e, pendurada nas costas do homem, uma AK47. Carolina sentiu o corpo gelar.
- Carol… – seu pai pronunciou com nítido esforço – sai daqui… Leva sua mãe… Sua irmã… Farol…
Sangue escorria de sua boca enquanto falava. Carolina aproximou-se mais ainda.
- Não! Para com isso, por favor! – gritou para o homem que feria seu pai.
Sua mãe e irmã correram até o local e gritaram ao ver a cena. O homem com a AK47 lentamente ergueu o rosto e mostrou a face ensanguentada e torcida em ódio e terror. Rosnou para elas e começou a levantar, cambaleante.
O pai jazia com os olhos fechados, a barriga aberta e expondo as tripas e carnes vermelhas. Rosa vomitou. Priscila chorava cada vez mais alto. Tomada pelo sentimento de raiva, Carolina correu até a porta e apanhou a faca, suas mãos tremiam tanto que precisou usar toda sua força para segurar o objeto e enfiá-lo nas costas do homem que estendia as mãos sujas para sua mãe e irmã.
A faca deslizou com dificuldade pelo corpo. A garota a puxou de volta. O homem virou-se para Carolina e soltou um urro grotesco, saltando sobre ela. Os dois rolaram pelo chão, caindo em cima do cadáver e espalhando seus órgãos ao redor. Rosa atirou-se sobre o homem e, podendo mover-se com mais facilidade, Carolina afundou a faca na cabeça do maldito, perfurando seu olho esquerdo. Imediatamente ele parou os movimentos, como se houvesse sido desligado.
Antes que pudessem tomar qualquer atitude, uma mulher com a mesma feição atormentadora entrou pela porta aberta e se jogou contra Rosa. As duas travaram uma briga de braços, esbarrando nos poucos móveis da casa, derrubando os quadro da parede e os vasinhos de flores da janela. Agachada em um canto, Priscila assistia a cena e chorava, pequena demais para fazer outra coisa.
Em meio ao caos, Carolina rastejou até o cadáver do homem que matou e tomou para si a grande arma.
Nunca havia manuseado armas de fogo, tampouco matado alguém antes desse dia, mas não sentiu medo ou remorso. Apontou para a mulher, mas ela e sua mãe giravam de um lado para outro, tornando impossível qualquer tentativa de mira.
- Mãe, fica parada! Segura ela pra mim – gritou.
Rosa empurrou a mulher contra a parede e lançou todo peso do corpo para segurá-la.
- Rápido, Carol, rápido! Não vou conseguir segurar essa desgraçada muito tempo!
E encostando o cano na cabeça da mulher, apertou o gatilho.
O estrondo foi alto. A cabeça da criatura estourou e espalhou miolos pela parede e em Rosa, que tornou a vomitar. O coice da arma derrubou a garota no chão e machucou seu braço, mas ela quase não sentiu a dor, pois o medo tomava conta de todos os seus sentidos.
- Mãe – falou enquanto Rosa acalmava Priscila e limpava o sangue no próprio rosto – precisamos sair daqui…
O barulho dos tiros havia cessado, mas ainda podiam ouvir os gritos vindos de todas as direções.
- O que nós vamos fazer? – as lagrimas enchiam os olhos de Rosa.
- Vamos sair daqui. Depois a gente decide o que faz.
Sem qualquer preparo ou plano, Carolina apoderou-se da arma e da responsabilidade de manter sua família viva. A favela havia aguentado a infestação durante quatro semanas, mas ela sabia que a praga chegaria até eles um dia, e agora que havia acontecido, ela precisava ser forte e lutar.
- Vamos para o farol.
Fim.
Texto de: Fernanda Oz
Arte de: Celso Ludgero

História Paralela nº 8

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Glauber – Maranhão

As mãos tremem. Mal consegue segurar o copo. A cada batida nas portas as mãos tremem mais.
Seu pai deve estar orgulhoso de você, Glauber. Ele sempre dizia “Filho, não tenha medo. O medo encolhe as bolas”. Mal sinto minhas bolas agora…
Já mijei e caguei o chão todo do bar. O fedor é sufocante. Três dias enclausurado num boteco, sem dormir, sem comer… Só esperando a hora que essas criaturas malditas vão estourar a porta. A barricada não vai aguentar por mais tempo.
Esses malditos simplesmente brotam. A rua está tomada. Os bastardos de merda me olham pela fresta da janela desejando minha carne. Seus olhos parecem bolas de fogo vindas do inverno, refletindo duas coisas: fúria e fome.
O calor aqui é dentro é infernal. Embora seja dia, mal vejo a luz do sol. Ela está lutando por um espaço na fresta da janela.
Eu devia aproveitar as facas na cozinha e me matar. Acabar logo com essa merda. Por fim nessa agonia…

Calma, Glauber! Entrar em desespero é a pior coisa. No desespero somos pegos de surpresa… Calma? Você não percebe a situação, idiota? Tá vendo aquela porta ali na lateral? Ela não tem chave, não tem trinco… Só uma cadeira safada está encostada na maçaneta. Igual o que você fez nos dois banheiros, Glauber. Percebe a situação? Lá fora tem centenas de “zumbis”, tem mais um em cada banheiro desse boteco imundo e, o que te manteve vivo, esses três dias, foram três cadeiras mal encostadas. Ou você é um filho da puta muito sortudo, ou Deus tem um ódio desgraçado de você pra te deixar nessa situação.

George Romero, seu filho da puta safado. Deve estar se deliciando com essa carnificina sem sentido. Tomara que o inferno lhe dê as glórias de merda, com uma coroa fétida e cheia de espinhos de ferro e que seja bem justa pra rasgar sua carne com louvor. Você não sabe o que é ver uma gestante ser aberta como embalagem de salgadinho. Não sabe como é ver o feto sendo devorado por essas crias do mal. Você nunca vai saber qual a sensação de usar uma grávida como escudo…
Alguns dizem que você foi uma espécie de profeta, pra mim sempre será um louco.

Olha pra você, Glauber. Todo cagado e mijado, jogado no chão. Três dias assim. Sem dormir, de tanto medo. Sem comer, com medo de ir até o balcão e pegar alguma coisa bem gordurosa, só pra sentir o gosto de gordura enchendo a boca. Mas não. Você pegou uma porra de um copo de uísque e não tomou nem um gole. Tá segurando esse copo como alguém segura as próprias bolas depois de um chute. Tá há três dias com esse copo na mão. Você é um merda. Uma menininha chorona. Chorando igual um veadinho… Que belo monte de merda você se tornou. E ainda se achava o ser supremo lecionando história da arte.

Já pensou na família da grávida que você atirou pra esses cães do demônio? Já se perguntou se ela estaria bem agora? Parou pra imaginar se ela faria o mesmo com você? Você é podre, Glauber. Merece morrer. Merece ser esquartejado e jogado no chão pra ser pisado. Nem como comida você serve. É desumano, mesquinho e ainda deu pra falar sozinho… Tomara que tenha uma morte fria e lenta, tomara que alguma dessas cadeiras caia e que você seja trucidado pelo que fez àquela mulher.

Ouviu isso?
Não é sua imaginação. É real.
É, Glauber… Acabou de se foder. Parece que o Diabo te ouviu. A cadeira na maçaneta do banheiro feminino caiu… Onde está seu deus agora?
Você não consegue nem se mexer. É uma vergonha pra humanidade.

Olha pra ela, Glauber. É uma gestante. Que ironia, não? Vai matar essa também? Você tem colhão pra isso? Não. Você é frouxo, mas ela não. Ela te ouviu esse tempo todo. Será que ela tem alguma consciência? Se ela tiver, você vai sofrer mesmo, seu verme imundo.
Olha como ela caminha devagar… O vestido todo rasgado e sujo de vômito. Ela deve ter tentado se comer naquele banheiro fétido. Mas agora ela encontrou você.
Fúria e Fome.

Vai fazer o que? Fugir? Pra onde? Você sequer consegue mover o copo.

- O… Olha, moça… – ‘’Acha que ela está te escutando?’’- Eu… Eu… Eu não fiz por mal… Eu juro. – ‘’Para de chorar e seja homem, porra!’’ – Eu não sabia o que fazer… Tava com medo… Me perdoa.

Fúria e Fome, Glauber. É só o que ela sabe.

Ela tá cada vez mais perto. Não tira os olhos de você.

Que merda de vida sem sentido. Estou prestes a morrer e a única coisa que me vem à cabeça é cantar. E a única música que me vem à cabeça é “Cielito Lindo”.

“Ese lunar que tienes, Cielito Lindo, junto a la boca,
No se lo des a nadie, Cielito Lindo, que a mi me toca,
Ay, ay, ay, ay, canta y no llores,
Porque cantando se alegran,
Cielito Lindo, los corazones.
Ay, ay, ay, ay, canta y no llores,
Porque cantando se alegran,
Cielito Lindo, los corazones.”

Não me lembro do resto da música. Que se foda! Ela já está aqui me olhando e rosnando. Tem um braço todo putrefato saindo da barriga dela. Está se mexendo. E eu aqui, sorrindo como um idiota.
Se tá no inferno, abraça o capeta.

Leonardo Favaretto

História paralela nº 7 parte 2 (final)

 

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Parte Dois

As ruas à minha frente estavam vazias. Pude correr sem maiores complicações até perceber que estava novamente no viaduto do chá. Resolvi atravessá-lo.
Parei de correr e tomei ar. Dois dias sem urbanização e o oxigênio já estava diferente, mais leve… Admirei a vista lá do alto.
Magnífica. São Paulo é incrível, mas quase não notamos. Uma selva de concreto.
A paisagem era hipnotizadora. Uma cidade adormecida, pintada por fracos e brilhantes raios de sol.
Lá em baixo, à esquerda, nada. Nenhuma alma pra contar história, mas, pela direita, tomando o mesmo caminho que eu havia tomado, os primeiros fardados começavam a aparecer. Montados nos grandes cavalos que carregavam aquela carroça estranha cheia de cadáveres, eles já não pareciam estar fugindo.
Outros, desmontados, chegaram depois deles. Com uma grande movimentação e alguns gritos de comando, abaixaram o compartimento com os corpos e então fizeram algo que mexeu com a minha cabeça…
De dois em dois, formaram uma fila. Cada dupla pegava um corpo e então o carregavam além da esquina, onde eu não podia ver o que acontecia, mas aos poucos, a circulação foi se acalmando.
Fizeram isso, um a um, até que todos os corpos haviam sido levados.
Tenho sorte por não ter visto o que estavam fazendo com toda aquela gente morta… Minha imaginação já era perturbadora o suficiente.
Sai do transe e corri até o final do viaduto, não fiquei para ver o fim do show…
Sabe, ninguém me tira da cabeça que algo horrível aconteceu ali… O estado daquelas pessoas mortas era saudável demais para estarem contaminadas. Eu acredito, sem maiores expectativas, que foram usados como ‘’isca’’ contra as coisas que os perseguiam… Como um maldito pedaço de carne para um cachorro bravo. Não existe outra explicação, existe?
Eram poucos corpos para formar uma barricada eficiente…
Não cheguei a vê-los, mas pude ouvi-los e senti-los… Estavam lá.
Aliás, o fedor deles pode ser sentido de longe. Uma mistura de mijo e merda cinco vezes mais forte do que no mendigo mais sujo que já conheci.
Seja lá o que os milicos fizeram, parece ter funcionado.
Após mais algumas horinhas andando sem grandes acontecimentos, cheguei a acreditar que as coisas não estavam tão ruins assim, mas como nada que é bom dura muito, eu tive que cruzar aquela maldita rua.
O corpo inerte e seminu daquela mulher, a enorme poça de sangue ao redor de seu quadril e… Prefiro não lembrar…
Eu posso suportar quase tudo nessa vida, mas quando se trata de crianças, eu sou um fraco.
Acredite, aquela cena mexeu comigo por dentro. Naquele momento tive certeza que uma parte importante de mim foi arrancada, e o mundo perdeu o resto de sentido que ainda possuía.
Corri para longe de lá, as lagrimas quentes escorrendo secavam rapidamente com o vento forte que soprava. O sol estava se pondo e as sombras começavam a cair sobre os edifícios.
Procurei por um prédio aparentemente convidativo onde pudesse passar a noite, e acabei escolhendo essa loja de roupas. Era o único lugar que não estava saqueado ou destruído.
A grande porta de vidro estava destrancada, então entrei silenciosamente… Olhos e ouvidos atentos a qualquer sinal de perigo e a amiga faca na mão.
Área de roupas, ok. Balcões, ok. Provadores, ok. Banheiros, ok.
Parei uns segundos para admirar o lugar. Fazia anos que não entrava em lugares como esse… Não somos bem vindos.
Pois bem, tudo limpo na parte de baixo do prédio. Subi o lance de escadas enquanto os últimos raios de luz iluminavam vagamente o local.
No segundo e último andar, um corredor extenso e estreito, com duas portas fechadas na lateral esquerda e quatro janelas abertas na direita.
Grudei a orelha na primeira porta, nenhum barulhinho se quer… Minhas mãos suavam muito, e fui obrigado a seca-las, esfregando-as na calça. Segurei a maçaneta e hesitei uns instantes. Aquilo tudo era muito estranho. Me sentia numa cena de filme, onde o personagem entra em lugares que deveriam permanecer vazios e se depara com o monstro. Era ridiculamente assustador.
Reuni coragem e abri a porta de uma vez, dando um pulo para trás e levantando a faca.
A sala estava vazia. Digo, desabitada. Apenas duas mesas de escritório, com computadores, impressoras e papéis empilhados. Uma cafeteira e um pequeno sofá de couro preto com revistas em cima.
Suspirei aliviado, quando uma pancada na sala ao lado me fez saltar de susto.
Pesei os passos até o corredor e fiquei de frente para a porta trancada que separava a morte de mim.
Meu cérebro trabalhou a todo vapor, enviando muitas informações para o meu corpo e mente, praticamente enlouquecendo-me. Dei um tapa em minha própria cabeça, forçando meus sentidos a se acalmarem.
Eu precisava encarar e resolver o problema, ou então mais deles seriam atraídos até mim.
‘’Vamos lá, você sabe o que tem que fazer! Você consegue. É só abrir a porta e acertar esse filho da puta na cabeça. Você já fez isso antes, lembra? Você consegue!’’
Repeti a frase mentalmente pelo menos dez vezes.
O pânico tentava me dominar e eu estava quase perdendo a luta.
Com a mesma coragem de um suicida, abri a porta com violência e esperei o maldito aparecer.
Vinte segundos pareceram anos, e nada aconteceu.
Foi então que adentrei o recinto, bufando feito um touro e preparado para matar novamente, e vi você.
Deitado no canto ao lado do sofá, encolhido como um tatu-bola.
- Ainda bem que você chegou, pensei que ficaria sozinho pra sempre…
- É, parece que você e eu somos rapazes de sorte, não é mesmo, mocinho?
- Eu não tenho sorte, tio Toni. Eu vou morrer.
- Todos morrerão um dia, André. Uns vão mais cedo que os outros, mas todos terão o mesmo destino final. – Toni segurou a mão do pequeno garoto. Não conseguiu evitar o choro. Conhecia tão pouco aquela criança, apenas dois dias desde que o encontrou, mas sentia-se profundamente ligado a ela. Um pequeno guerreiro, que passou por coisas que ninguém deveria passar, principalmente alguém tão jovem e inocente como ele. Sobreviveu sozinho por quatro noites, e morreria sozinho também, mas agora ele estava ali, e velaria os últimos instantes de André.
- Posso fazer um pedido, como se hoje fosse o meu aniversário?
- É claro que você pode, desde que não seja um bolo… Eu não sei cozinhar – Toni fez o pequeno gargalhar, mas seu corpo estava tão danificado internamente que acabou tossindo sangue.
- Se você contar sua história pra outra pessoa, eu posso fazer parte dela?
Um nó formou-se na garganta do andarilho, e o mundo ao seu redor parecia girar como um daqueles brinquedos de parque de diversão. Queria gritar e amaldiçoar Deus por tamanha crueldade, mas conteve-se.
- Claro… – engasgou ao falar – Claro que pode. – o choro descia inevitável – Você fará parte da minha história, tenha certeza disso, garotão!
André sorriu e imaginou-se na história de Toni, e ficou feliz por isso. Adorava histórias e sempre quis fazer parte de uma. Sonhava em ser um grande escritor um dia.
Encarou o ultimo rosto que veria e fechou os olhos, e então, mais uma vez, Toni estava sozinho.
Sem esperança, sem rumo e sem amparo.
Apenas um ninguém que carregará a vida e a morte nas costas, até sua própria história chegar ao fim.

Fernanda Oz

 

História Paralela nº 7

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São Paulo – Capital

- Andarilhos, ciganos ou, como eles costumavam nos chamar em ocasiões formais, sem-teto. Meu nome era ninguém, mendigo excluído sem norte e pretensão. Mas aqui entre nós, eles não sabiam de nada. Eis a minha história: Eu tinha um teto novo todos os dias, um norte sem capitalismo e a pretensão de um bebê que dorme no colo da mãe.

 Lembro-me da primeira vez que os vi pessoalmente, de longe… Rápidos, iam deixando um rastro de destruição por onde passavam. O velho galpão do viaduto do chá que servia sopão estava aberto e, junto de mais alguns, fiquei protegido, por sorte ou destino, do farejar daquelas coisas. Passei a noite por ali, encolhido em um canto do pequeno salão filantrópico, mudo, resgatando fragmentos de memórias que a muito havia decidido esquecer.

Foi uma noite longa, daquelas que o sono parece evitar chegar. Mas acabou chegando.

Quando acordei e lentamente abri os olhos, fui golpeado pela claridade estridente da manhã que entrava pela única abertura do lugar. Por incrível que pareça, todos haviam partido sem nem mesmo a decência de fechar a merda da porta…

 Por quanto tempo eu dormi exposto daquele jeito? Realmente não faço ideia, mas o que mais me irritava era o fato de ter sido abandonado ali como se não fizesse diferença. Abandonado por pessoas que eram tão invisíveis quanto eu, miseráveis o mesmo tanto…

Deixando a humilhação de lado, me esgueirei depressa até o canto mais escuro do galpão, perto da porta aberta, e esperei pelo pior. Por um bom tempo fiquei assustado demais para mexer um músculo se quer, sentindo falsa segurança naquela frouxa escuridão…

 O único barulho que eu ouvi durante alguns minutos era meu estomago faminto. Tomei coragem e levantei, com dificuldade, pois minhas pernas estavam dormentes, e fui até a mesa onde a panela de sopa estava estacionada.

Comida fria nunca foi tão boa, pode acreditar.

Munido de uma faca doméstica que encontrei na prateleira, fiz o mesmo que os outros e sai dali. As ruas estavam solitárias e monótonas, bem diferentes do normal. Andei um bocado sem problemas até avistar um deles. Um homem, mais ou menos da minha altura, de roupa social e rosto ensanguentado. Executivo ou gênero parecido. Ele saiu de trás de um Meriva vermelho que estava parado no meio da avenida e veio correndo em minha direção. Quando me dei conta do que estava acontecendo não pude mais correr, pois o maldito já estava muito perto. Com a agilidade de um susto, segurei a pequena faca com força e cravei em seu peito. Ele pareceu quase não sentir, mas isso me deu alguma vantagem. Repeti o mesmo golpe algumas vezes e em lugares diferentes de seu corpo, dessa vez com mais força, sentindo a carne dura sendo perfurada pela lâmina que minhas mãos manuseavam, vendo o sangue escuro escorrer pelos buracos que eram feitos… Enfim ele caiu.

Não caiu pelos golpes, mas pelo peso do meu corpo contra o dele.

 Parti para cima, desferindo mais algumas facadas, dessa vez em sua maldita cabeça. Só parei quando tive certeza que ele não levantaria mais.

É uma sensação inexplicável, sabe? Passei algum tempo tremendo e remoendo o fato de ter matado alguém, mesmo alguém como ele. Liberta ao mesmo tempo em que crucifixa…  Você age por sobrevivência, no ímpeto de passar mais algumas horas por aqui, mesmo que mal e parcamente. Mas de viver mal e parcamente eu entendo bem, né?

Fugi o mais rápido possível, tentando não encarar o cadáver estirado ao chão que aos poucos ia ficando para trás.

Conforme corria, uma sirene gritava em minha mente, tão alta que cheguei a questionar se era apenas imaginação. Era mais que imaginação… Um aviso dos meus instintos, na verdade.

As ruas do centro de São Paulo estavam vazias demais, desertas como uma cidade fantasma. Desde que o caos havia começado, um ou dois dias atrás, isso não havia acontecido. Elas estavam sempre lotadas deles… Algo estava errado, eu podia sentir.

A sirene em minha cabeça me manteve atento. Logo comecei a me pressionar.

Para onde, diabos, eu iria?

O que faria?

A solidão nunca foi tão desesperadora. Apesar de não ter ninguém, sempre tive todo mundo… O barulho dos carros, dos passos, das vozes. A correria do cotidiano era confortável, diria que até mesmo amigável. Mas ali, nada. O ultimo homem racional da Terra.

Pelo menos era o que eu pensava.

O silencio sepulcral foi quebrado pelo trotar da cavalaria. Sem saber de quem e de onde o som vinha, corri com o rabo entre as pernas e me escondi atrás de um pequeno caminhão atolado na calçada. Espiei como pude e presenciei a cena mais gloriosa que já havia visto até aquele momento.

Centenas de homens armados, montados em cavalos fortes e imponentes, seguiam para algum lugar. Um verdadeiro exercito moderno. Aos meus olhos, salvação.

Mas, conforme iam passando, pude reparar em seus rostos. Estavam apavorados.

Se o medo tem um rosto, aqueles homens já o viram.

Apesar de tudo isso, achava que era melhor estar com eles do que só. Eu não iria muito mais longe despreparado como estava. Não queria continuar sozinho. Algo em mim ansiava pela presença humana alheia… Algo primitivo, creio eu. Uma vez li que o homem é um ser sociável, uns mais que os outros, mas ainda assim todos.

Eles estavam fardados, e em sua farda estava o dever de ajudar a população, pelo menos em teoria… E eu era a única população ali, infelizmente.

Mas, durante o tempo em que me perdi com pensamentos, algo maior se aproximou.

Outro grupo de cavalos, maiores e mais fortes, arrastando um tipo de carroça improvisada e, dentro delas, dúzias de corpos.

Não eram dúzias de corpos deles, mas sim de corpos de pessoas saudáveis, como eu. Melhores que eu. Limpas, bem vestidas… Mulheres, crianças, homens e velhos. Todos mortos e amontoados.

Sem salvação.

O por que até hoje não sei, mas não dei a cara para descobrir. Certas coisas não devem ser descobertas, não é mesmo?

Por sorte não me viram. Seguiram em frente, até que o tiroteio começou.

Um coral de gritos masculinos se misturou com o relinchar dos animais e o estrondo das armas. Fiquei confuso por uns instantes, mas logo entendi.

Estavam sendo atacados.

Sai de trás do caminhão e corri, virando na primeira esquina que encontrei.

Corri como se não houvesse amanhã. Na verdade, não acreditava que veria o dia seguinte. 

…Continua.

Fernanda Oz

N°6 parte 2 – Consequências

História Paralela n°6

parte 2 (final)

Rio Grande do Norte – Natal

Paulo arrasta o corpo do irmão com certa dificuldade e o coloca em um canto acobertado do iate, certificando-se de que fique bem protegido.
- Ele foi obrigado a fazer aquilo… Caio estava totalmente fora de controle, rosnando e babando feito um cão raivoso. Eu teria feito o mesmo – diz enquanto se corrói em ansiedade.
Beatriz está desembarcando.
Paulo faz o mesmo, evitando ficar sozinho com a presença acusadora do irmão.
- Maldita hora em que resolvi fazer caridade e aceitar as investidas do seu irmão… Se ao menos ele fosse… – Um puxão violento no braço cessou sua frase e a fez cambalear.
- Muito cuidado com as suas próximas palavras… Eu ouvi tudo que você disse pra ele lá em cima e não vou esquecer. Não me interessa que tipo de relacionamento doentio você e Caio escondiam, mas agora ele está morto e meu irmão está fodido, entendeu a situação? É melhor você colaborar – Paulo sussurrou ameaçadoramente em seu ouvido e então a soltou com um empurrão.
Beatriz sente-se humilhada. Lagrimas de raiva acumulam-se em seus olhos e um ardor característico queima-lhe o peito. Sua cabeça fervilha raivosamente, mas ela mantém-se impassível por fora.
Eles caminham em silencio até chegar à avenida principal.
- Apavorante… Parece que alguma coisa muito grande aconteceu enquanto estávamos fora– Paulo comenta ao chegar ao local.
As calçadas estão cobertas por papéis e lixo. A maioria das casas parece intacta, embora uma ou outra apresentem sinais claros de invasão. Os carros abandonados com as portas abertas chamam a atenção. Eles se aproximam com cautela, observando atentamente o interior de um dos veículos.
- Que idiota largaria o carro no meio da rua desse jeito? – Beatriz questiona-se.
- E com a chave na ignição… – Paulo ressalta.
Por alguns momentos esqueceram seus problemas maiores e deixaram-se levar pelo susto surreal de encontrar um local urbano abandonado de ponta cabeça.
Um cheiro distante de queimado pode ser sentido, embora o foco do incêndio não seja visível.
- Onde está todo mundo? Não vimos ninguém desde que desembarcamos.
Paulo sente um desconforto na boca do estomago. Algo está muito errado e ele sabe.
- Não faço ideia, mas não parece coisa boa – Ele teme pelo pior.
Logo um estouro ensurdecedor os atinge, fazendo-os empalidecer de susto.
- Mas o que…? – Ela observa as chamas consumirem dois carros no fim da avenida.
O acidente foi rápido.
Em um momento tudo estava vazio e quieto e então dois carros chocaram-se bruscamente, saídos sabe-se lá de onde.
- Puta merda! – Paulo corre para o local do acidente, impressionado com o tamanho do fogo e do estrago.
- Espere! – Beatriz grita, mas ele não dá ouvidos.
O clarão das chamas é intenso. Paulo sente o calor aumentando a cada passo, fazendo-o suar. Do fundo, Beatriz tem uma visão ampla da avenida, agora interditada pelo incêndio e destroços.
Ela aperta os olhos duas vezes para ter certeza de que não está sendo trapaceada pela adrenalina do momento.
- Impossível… – diz boquiaberta.
Varias silhuetas formando-se dentro do fogo vão aparecendo. Uma após a outra, e logo uma dúzia delas podem ser apontadas.
- Impossível… – repete em transe, sem nenhuma reação.
Paulo diminui o passo, pois o calor chegou ao seu limite. A breve distancia em que se encontra das labaredas não o deixa perceber o perigo.
O rapaz é surpreendido por vários indivíduos inflamados saindo das chamas.
- Meu deus do céu… – ele exclama.
Beatriz permanece intacta. O medo a prende no chão.
Paulo caminha de ré, incapaz de tirar os olhos daquela cena perturbadora. As tochas humanas caminham rápido em sua direção, como se ele fosse capaz de acabar com seu sofrimento.
Ele continua recuando. Conforme avançam os corpos caem no chão, totalmente carbonizados e impossibilitados de andar… Ou viver.
Beatriz inspira aceleradamente, mas sente que nenhum ar entra em seus pulmões. Mais e mais corpos vão se formando nas chamas, e a cena torna-se irreal.
Paulo, agora mais distante do incêndio, começa a perceber a gravidade da situação. Vira-se para correr daquele lugar infernal, mas é pego por uma visão obscura.
Uma aglomeração de pessoas ensanguentadas cobrem as costas de Beatriz, que parece não perceber.
- Atrás de você! – ele grita e gesticula. Sua voz sai rouca e abafada, mas ela entende seus sinais.
Vira-se com receio do que possa encontrar atrás de si. Sua mente está sobrecarregada de estresse e medo. Dúzias de pessoas com aparência funesta estão a menos de um metro dela, rosnando e babando.
Ela pergunta-se como não os ouviu, mas não chega a nenhuma conclusão, pois é atacada cruelmente por mãos e dentes que a rasgam e ferem sem piedade. Seu grito é afogado pelo sangue que jorra de sua garganta. É esquartejada dolorosamente, mas nada se compara à dor que deixou em Diego.
Os que não conseguem alcançar Beatriz caminham na direção de Paulo. Vagarosa e angustiadamente.
- NÃO! O QUE VOCÊS ESTÃO FAZENDO? O QUE QUEREM? – Ele berra desesperado, chorando como um bebê.
Está num beco sem saída. Não tem para onde correr ou se esconder. O fogo e as pessoas moribundas trancam todas as suas escapatórias. Nenhum carro ou casa abertos ao alcance, nenhuma ajuda externa… Cada segundo que passa tentando formular uma solução o aproxima do pior.
Lembra-se de sua família, lembra-se do irmão. Uma dor atinge seu peito de forma irreparável.
Todas as coisas que planejou fazer não serão feitas. A culpa que carrega no peito não será aliviada, e não existe nada que possa ajuda-lo.

Fernanda Oz

N°6 parte 1 – Segredos

 

História Paralela n° 6 parte 1

Rio grande do Norte – Natal

O corpo se debate com força na água enquanto é sugado para o fundo do oceano, deixando uma mancha vermelha na água límpida banhada pelos primeiros raios de sol.
- Cara, o que você fez? – Paulo observa a cena com espanto.
Diego tem meia dúzia de olhos arregalados grudados nele. Os planos de diversão estão afundando assim como o amigo que ele acabara de matar.
- Você enlouqueceu! – Beatriz berra aos prantos repetidamente.
- Ele me atacou! Vocês estavam aqui… Vocês viram! – Diego contorce o braço ferido que pulsa sangue pela mordida profunda.
- Isso não justifica o que você fez cara… Ele era seu amigo – Paulo observa enquanto o iate se afasta do local onde o corpo foi jogado.
Diego sente um forte enjoo atingir seu estomago. Cambaleia até a lateral do barco e coloca a cabeça para fora, vomitando um liquido fino e avermelhado. Seus olhos lacrimejam e um gosto enferrujado de sangue cobre seu paladar.
A manhã está ensolarada, e o cheiro salgado do mar que o vento trás é forte e selvagem. O cais está ainda distante.
Beatriz manuseia o celular desesperadamente em busca de sinal, mas seu esforço é em vão. Ela joga o aparelho em um canto qualquer, nitidamente perdendo o autocontrole.
- Nós estamos muito ferrados, definitivamente ferrados.
- Eu não acredito que isso está acontecendo – Paulo anda de um lado para o outro com as mãos na cabeça, tentando achar uma solução para o problema.
- Não… Vocês não fizeram nada, eu fiz – Diego tenta acalmar a situação e acalmar Beatriz, aproximando-se lentamente dela. Anos de namoro deram a ele conhecimento suficiente para saber que ela iria surtar.
- Não chega perto de mim, assassino! O que você quer comigo? Me matar e depois jogar meu corpo no mar também?
As palavras o acertaram em cheio, emergindo lembranças que há muito haviam adormecido em um canto esquecido de sua mente.
- Escuta o que você está dizendo… Eu jamais te machucaria – Falou tentando segurar as lágrimas que ameaçam quando o que menos queremos é demonstrar fraqueza.
- Eu sei exatamente por que você fez isso… – ela rosna enquanto arranca a aliança de compromisso que Diego havia comprado três anos atrás – Você matou o Caio porque descobriu que nós estávamos juntos, não foi? Você descobriu que a única coisa que eu sinto por você é pena! Três anos aguentando seus problemas apenas por dó, mas agora isso acabou – Ela encara o anel por uns segundos e então o atira na água – ACABOU!
Diego fica paralisado. Seus pés parecem pisar em um chão gelatinoso, e o sol forte que clareia todo o recinto lhe parece esverdeado, sem vida. Todas as lembranças felizes dos anos que passou sem desconfiar de tal traição rodam em sua cabeça.
Sua boca é incapaz de pronunciar qualquer palavra.
Ele fita os olhos de Beatriz, mas já não encontra a mulher que dava sentido em sua vida. Encontra apenas dois lindos olhos castanhos cheios de ódio e repulsa. Sente-se envergonhado e enganado.
Por um momento questiona-se se isso é um sonho, mas o balanço do mar e o sangue espalhado pelo chão do iate deixam claro que não. Sua vida realmente está desmoronando.
Um barulho atrás dele o tira do transe.
Beatriz encara algo atrás de Diego com os olhos arregalados. Ele se vira rapidamente para saber o que está acontecendo e é atingido por uma pancada no rosto.
Ele cai, perdendo a visão por alguns milésimos de segundo.
- Acerta mais forte! – ele ouve Beatriz gritar. Não enxerga o agressor, mas sabe que é Paulo, seu irmão. Outra surpresa desagradável.
E então é atingido novamente, mais uma vez e outra vez mais, sentindo a vida esvanecer-se de si lentamente até perder a consciência.
Beatriz e Paulo ficam em silencio, observando o corpo desacordado de Diego. A preocupação é densa, e o terror está claramente estampado em seus olhares, mas eles repetem mentalmente, em uma tentativa chula de amenizar o pânico, que o rapaz apenas desmaiou e que ninguém mais morrerá ali hoje.
Paulo deixa os dois para trás e caminha angustiado até a proa do iate. Observa atentamente o porto, agora a poucos metros de distancia.
Suas veias congelam e por alguns instantes acredita que perdeu a lucidez.
O porto está destruído, pequenos barcos estão praticamente de ponta cabeça e focos de incêndio podem ser vistos ao longe, atrás das casas e prédios da orla.
Nenhuma pessoa ou ser vivo à vista. Apenas carros espalhados por todos os cantos e lixo por todos os lados. A praia está totalmente abandonada, e o cenário parece saído de um filme apocalíptico.
Beatriz se aproxima, hipnotizada com a visão de uma guerra.
- Meu Deus… – ela sussurra boquiaberta.
Embora possam ouvir sirenes ao longe, custam a encontrar algo que possa ter causado tamanha destruição. Estiveram fora por apenas três dias!
- O que aconteceu por aqui…? – Paulo solta a frase no ar – O que vamos fazer? – Alterna a visão entre o corpo de Diego e o cais. Já não sabe mais distinguir o certo e o errado. Primeiro a morte de Caio, depois apunhalara o próprio irmão, e então a ruína desse lugar. Tudo isso está pirando sua razão.
- O deixamos aqui e vamos embora – Beatriz sugere sem desviar o olhar da destruição enorme daquele lugar maravilhoso – Ligamos para a polícia do telefone do Hotel. Acho que essa vai ser a menor preocupação deles agora.

… Continua.

Fernanda Oz

isabele

História Paralela nº 5

Isabele – Paraná 

 Outra noite cobre os céus, tão densa e assustadora quanto todas as outras antes dessa, mas a pequena Isabele sente que o vento gelado que entra pela janela está levemente diferente.

Sua mãe, que parece mais morta que viva, balbucia com esforço algumas palavras incompreensíveis. A garota aproxima o ouvido da boca da mulher para tentar ouvir melhor:

- o que a senhora disse? – pergunta. A respiração quente e fraca da mãe coça-lhe a pele.

- á-água.

- Vou pegar água pra você… – disse – Ah, e não se preocupa com o papai… Daqui a pouco ele vai chegar pra cuidar de você também. Ele só tá demorando porque hoje tem futebol na televisão. Ele sempre assiste ao jogo no bar com os amigos dele, né?

Mesmo sem conhecer a palavra e seu significado, todas as perguntas de Isabele para a mãe são retóricas. Respirou fundo e, engolindo um possível choro, foi buscar a água.

Da parede entre a sala e a cozinha um grande relógio grita que já passa da meia noite. Um calafrio gelado percorre as costas da garota, fazendo-a tremer de baixo a cima. Não gosta de relógios. Eles são os acusadores de que o tempo passa e tudo que ela ama vai embora.

‘’- Sua mãe não tem muito tempo de vida sobrando, mas não posso pagar um hospital ou alguém para cuidar dela, então você vai fazer isso‘’.

Maldito tempo que passa tão depressa…

Deseja intensamente que algum dia alguém cuide dela, ou que pelo menos possa voltar à escola e ser uma criança normal. Faz muito tempo que não sabe o que é ser criança.

A ultima memória que tem de ter sido feliz é de algum tempo atrás, na casa de sua avó. Isabele ama aquele lugar como ama poucas coisas na vida. Uma velha casinha com jardim nos fundos, onde uma grande arvore carrega um balanço colorido. Bons tempos que se foram. Tem vontade de chorar ao lembrar-se, por isso evita pensar.

Volta para o quarto carregando um copo d’água e, com a maior delicadeza e habilidade possível, dá de beber a moribunda que um dia foi sua mãe. Um dia que ela não se lembra, pois era muito pequena.

A mulher quase não bebe nada, mas parece acalmar-se depois disso. Isabele coloca o copo sob o criado mudo e vai até a janela contemplar a vista da rua, que é iluminada por alguns poucos postes de luz.

Ao fundo, dobrando a esquina, uma figura caminha cambaleante. O coração da garota da um salto ao agarrar-se a esperança de que possa ser seu pai. Debruça o corpo para frente e observa com mais atenção.

Ela identifica a figura masculina de seu genitor.

- Ele chegou! O papai chegou mãe! – grita. A mulher parece não ouvir.

Eufórica, Isabele sai do quarto e corre até a porta da sala, abrindo-a. Então, sem conseguir controlar-se, chama:

- Pai? É você? – diz aos pulos.

A figura, atraída pela doce voz aguda da criança, começa a andar mais rápido. Isabele não estranha o jeito torto do caminhar do pai, pois ultimamente ele tem bebido demais. Mais do que sempre.

Ao chegar à entrada da casa, o rosto do homem fica visível. Definitivamente é ele.

 Finalmente chegou em casa e a garota poderá desfrutar de uma companhia de verdade por alguns instantes, antes que ele desabe em qualquer canto e durma roncando como um porco gordo. Está tão feliz que não nota as pequenas manchas de sangue na roupa de seu pai e a enorme ferida que tem em uma das mãos.

- Pai, ainda bem que você chegou… Não aguentava mais esperar. Adivinha o que aconteceu hoje? – e antes que a animada Isabele pudesse começar a contar como foi seu dia e desabafar suas longas histórias ele ajoelha e abraça-lhe.

Com uma onda de surpresa ela retribui… Está um tanto assustada, mas carente demais para questionar. Não está acostumada com abraços.

Mas algo está estranho… O abraço se prolonga e começa a ficar muito apertado.

Sufocante.

Ela sente o ar faltar nos pulmões e os ossos estralarem. Tenta livrar-se dos braços fortes do pai para respirar, mas como um cão raivoso ele morde-lhe a garganta, arrancando um enorme pedaço de pele e músculos. A garota sente uma dor fina atingir seu pescoço, seguida por um choque elétrico que percorre suas veias enquanto, aos poucos, uma cortina preta desce sobre seus olhos.

Com o olhar confuso e distante Isabele avista o relógio acusador na parede.

Ele não acusa mais.

Está girando os ponteiros e mostrando que seu tempo está quase no fim.

Pensa na mãe, na avó, no balanço colorido…

O pai muda o foco da violência e agora desfere mordidas sobre os ombros e braços da filha que, anestesiada, quase não sente nada.

Não sente medo.

Apesar de entender que está em uma péssima situação, sente-se em paz.

Suas têmporas estão pesadas demais e algumas lágrimas escorrem descontroladas.

Finalmente pode fechar os olhos sem preocupar-se em como será o amanha.

Com um ultimo suspiro e um pensamento feliz, recebe seu futuro de braços abertos.

Seu tempo zerou.

Fernanda Oz

História Paralela nº 4
Jacinto – Salvador

Jacinto tem um armazém na zona portuária de Salvador. Ele vende farinha, fubá, café e outros gêneros alimentícios que ele compra na cidade alta e vende fiado para os pescadores, a preços que eles conseguem ir pagando devagar, mas conseguem. Ele é compreensivo, sabe que o dinheiro é pouco.
Entretanto, se existe algo que realmente sustenta sua família, permitindo que suas filhas tenham uma educação melhor que a dele, é a solidão dos homens que vivem do mar. Marinheiros vêm de longe, deixam suas casas e suas famílias em sua terra natal e vagam por um mundo brutal e estranho, os que não tem família são piores ainda, cães do mar sarnentos e amargos, estivadores são brutos e insensíveis e pescadores são montanhas russas, indo do júbilo de um bom dia de pesca à depressão de mais um amigo ou parente perdido nas ondas de uma tempestade.
Jacinto vende a bebida onde todos afogam seus problemas, incluindo ele mesmo. Ele teria muito mais dinheiro se não estivesse bêbado a maioria do tempo, perdendo as contas de quanto seus fregueses lhe devem, sendo estúpido e quase violento quando a filha mais velha, Janaína, tenta ajudá-lo a organizar o caderno onde ele tenta manter as dívidas dos clientes mais costumais em ordem. Mesmo assim ele consegue ser um homem decente a maioria do tempo, especialmente com as duas filhas.
O velho Jacinto odeia violência, desde sempre, na verdade ele tem uma alma covarde, e somente na defesa de seu armazém e de suas filhas ele é capaz de puxar o calibre 38, presente de um primo policial. Algumas vezes os marinheiros mais bêbados precisam de uma “ajuda” para lembrar e que não devem brigar dentro do armazém, então ele apenas grita e sacode a arma acima da cabeça, sem nenhuma habilidade ou vontade de usá-la.
Sempre existem histórias e notícias no porto, e os bares são os lugares onde rumores se tornam fatos e fatos são distorcidos em lendas por bocas alcoolizadas e carentes de atenção. Jacinto as escuta com toda a atenção fingida que ele aprendeu a desenvolver através dos anos, faz parte do trabalho. Eles não pagam somente pela bebida, pagam também pelo direito de chorar suas mágoas com o garçom. Um marinheiro de um cargueiro alemão conta, entre soluços e tropeços no português, sobre como sua esposa o largou por um “begegnen“.
-Fala em português, não mistura a língua, polaco do caralho! A voz embargada de Jacinto zomba da dificuldade do marinheiro, que começa a tossir e se contorcer de uma dor súbita.
Janaína está ajudando o pai naquele começo de noite. Ela trabalha em um escritório de contabilidade como recepcionista e namora um dos contadores, que, apesar de ser mais de dez anos mais velho que ela, é um homem fascinante, que a completa totalmente. Apesar do desgosto do pai em relação ao namoro, ela o mantém, em parte pelo prazer de desagradar o pai.
-Pai ele tá passando mal, para de dar risada!
Jacinto demora menos de vinte segundos para se recompor, mas foi tempo demais.
Outro marinheiro, colega do homem que contava a história, larga sua cerveja e vai ajudar o amigo que se contorce em cima do balcão e quando o dono do bar se aproxima deles para ordenar que o desgraçado fosse vomitar lá fora, de preferência no mar, ele vê a cena mais escabrosa de sua vida, que o perseguiria em seus sonhos pelos anos que seguiriam.
O marinheiro doente estava com a cabeça apoiada no ombro do outro, da mesma maneira que um bêbado faria, mas a farsa acabou quando o jato rubro de sangue arterial esguichou feito espuma do mar, manchando até o teto do bar e gerando uma série de gritos desesperados, do homem mordido, das pessoas ao redor, da pobre Janaína, que não consegue tirar seus inocentes olhos da carcaça do homem sendo devorada por seu próprio amigo, seu irmão do mar.
Ele precisa de alguns segundos para entender o que deve fazer, pega o calibre 38 de seu esconderijo debaixo do balcão, coloca-lo no topo da cabeça daquele mostro disfarçado de homem, o demônio estava distraído demais com seu banquete para se incomodar, puxa o cão da arma para trás e aperta o gatilho.
É a primeira bala que aquele 38 dispara, em mais de quinze anos que ele está de guarda naquele armazém.
Jacinto está tremendo, não foi a mão dele que disparou aquela arma, foi o medo. O medo que ele sempre teve de que não fosse homem para sua esposa, que não seria capaz de criar suas filhas depois da morte dela, que ele não seria capaz de lidar com álcool, com o medo daquela aberração que apareceu em seu bar. Ele sente o cheiro e o calor e sabe que se urinou nas calças. Mesmo assim a primeira coisa que ele pensa é em cobrir os olhos de Janaína para que ela não presencie mais do inferno que se instaurou naquele humilde boteco.

Autor: Jordan Florio de Oliveira (especialmente para Planeta Morto)

jacinto

 

Ilustração por: Luis Alberto

planetaaaaa
História paralela nº3
José, Ricardo e Gabriele – Interior de São Paulo
Amarrado em uma cadeira de madeira, José observa Ricardo acender algumas velas para iluminar o quarto depois do apagão repentino que os acometeu.
- Entenda, eu não queria machuca-la, mas minha exultação ultrapassou um pouco os limites de seu frágil corpo. Enfim, isso não importa… Gabriele sabe que as coisas que faço por ela são por amor. – Ricardo comenta tranquilamente.
José debate-se em mais uma tentativa frustrada de libertar o corpo das amarras, apenas ansiando poder correr até a pequena cama onde, desmaiada, sua pobre filha se encontra e, com braços ternos, abraça-la. Ricardo põe-se ao lado do corpo imóvel de Gabriele e acaricia os cabelos da garota de forma nitidamente atordoada.
- Tenho muito que lhe agradecer Sr. José… Sua filha foi a melhor coisa que aconteceu em minha vida. – ele levanta a fina blusa de cetim que ela está vestida, despindo seu ventre e busto – Tenho muito que ensina-la como professor e principalmente como homem.
Com um sorriso no rosto, ele passa a ponta dos dedos pelo umbigo da garota, deslizando-os até a cintura.
José fecha os olhos regados em lágrimas e sente seu peito apertar-se em uma grave aflição que percorre cada espaço de sua alma pagã. Toda a dor que já sentiu em sua complicada vida não é capaz de confrontar a angustia de assistir sua filha ser molestada e não poder agir e a culpa de nunca ter notado que o lobo morava ao lado, disfarçado de cordeiro, e apenas esperava o momento certo para atacar…
Gabriele começa a retomar os sentidos. Os grandes olhos azuis são despertos para dar continuidade ao terrível pesadelo que já dura mais de um sono. Ainda entorpecida, ela sente as grandes mãos quentes de seu professor colonizarem seu corpo. Com os pulsos enlaçados à cabeceira da cama, torna-se ainda mais vulnerável as malícias do homem que se deita sobre ela, beija seu pescoço e alisa suas pernas.
Aos poucos Gabriele é invadida novamente, estilhaçada em vários pedaços que jamais poderão ser colados… Não pode gritar, pois Ricardo a amordaçou assim como fez com seu pai, José. Ela clama a Deus em pensamento, pedindo misericórdia pela insanidade ali incumbida. A cada estocada que recebe, pede desesperadamente que Ele à leve embora, pois seu corpo está destruído e seu espírito humilhado.
Ricardo coloca mais força em seus movimentos e encara o rosto abatido de sua presa, sorrindo sobre seu pranto soturno. Ele abocanha um dos seios da molestada e os suga com violência. José chora, sufocando-se em seu próprio desespero.
Gabriele conserva-se imóvel. A água quente que escorre de seus rebentos molha todo seu delicado rosto. Ela fita seu querido pai, ansiando que ele não estivesse ali presente. Ricardo prossegue com a tortura, passando a boca para o outro seio… Seus dentes cercam o mamilo e o mordem com força, fazendo Gabriele gemer de dor e contorcer-se. Ele não para… Aperta o pedaço macio de carne e sem mais demora, arranca-o impetuosamente. Sangue espirra para todos os lados, denso e abundante. José agita-se furiosamente, caindo no chão. Ricardo suga o liquido viscoso que jorra do buraco feito no seio como uma maldita sanguessuga.
Em meio à carnificina, ele retira seu membro rijo de Gabriele e, com rapidez descomunal, enfia dois dedos na garganta da menina, perfurando-a. Com a boca vedada, ela se afoga em seu próprio sangue, aliviada por finalmente morrer.
José grita abafadamente, batendo a cabeça contra o chão de granito em desespero. Seus pensamentos confusos se entrelaçam com tristeza e ódio. Ricardo deixa o corpo da garota de lado, e com os olhos vermelhos, pula da cama em movimentos desengonçados, porém ativos, atingindo a lateral do rosto de José com socos liquidantes, assolando a face e a vida do pai amargurado em poucos instantes.
Então, com as mãos sujas de morte, ele esmurra a própria cabeça, urrando e babando… Da forma mais assustadora possível, ele leva os pedaços moídos de José até a boca e os mastiga, soltando barulhos abissais que soam como uma gargalhada chorosa e bestial.

 

 

História Paralela nº 2

Jéssica – Rio de Janeiro

‘’Sonhos não colocarão dinheiro no seu bolso, homens sim’’.
Minha mãe sempre dizia que uma garota bonita e de destino miserável igual ao meu só ganharia a vida de um jeito… Na cama de alguém. Talvez ela estivesse errada, mas esse foi o caminho que segui. Não me orgulho do que faço, mas sobrevivo.
Todas as manhãs ao acordar tenho esperança de que vou superar esse destino, seguir por um caminho que me levará até um bom lugar, uma vida pela qual valha a pena viver. Mas a noite sempre chega e, mais uma vez, deixo em casa quem sou e adoto a máscara da desonra…
Um palco, uma dança e uma cara sensual. A música embala meus movimentos lentos e ensaiados enquanto encaro um homem grisalho que me assiste da plateia. As luzes amarelas e vermelhas combinam com o cheiro de licor e sexo e eu combino com o dinheiro que é oferecido como porta de entrada para um lance maior…
A noite está quente e meu corpo está suado, arrepiando-se com o leve vento que entra pela pequena janela ao lado. Ouço vozes masculinas chamando meu nome… Amanda é como eles me conhecem aqui.
Garçonetes com pouca roupa servem drinks para os clientes que, no geral, são homens matrimoniados e bem de vida que gostam de luxúria fácil e explícita.
Levanto meus cabelos com as duas mãos, descendo vagarosamente até o chão… Minhas pernas doem e minha cabeça lateja. Esse não é meu melhor momento, mas aqui eu não tenho direito a momentos bons. Engatinho até o grisalho e danço de quatro para ele… Minha visão está turva. Concentro-me e tento parecer normal, sexy e descontraída… É isso que ele deseja ver.
‘’Porco imundo’’
Meus joelhos parecem estar sobre cacos de vidro… Meu rosto se contorce de dor e mordo meu lábio inferior com força, fazendo-o sangrar. O gosto doce e enferrujado é tão forte que faz meus olhos lacrimejarem.
- dança pra mim, gostosa! – ele ordena em meu ouvido, ignorando qualquer ferimento em mim.
Não posso. Meu corpo está sendo massacrado por uma força invisível que esmaga cada músculo que movo. Olho para ele com os olhos molhados e ternos, esperando que ele entenda que não continuarei o show. Com o apoio das mãos tento erguer-me, mas as mesas, cadeiras, homens e mulheres ao meu redor parecem flutuar…
‘’O que está ocorrendo comigo?’’.
Sinto que vou desmaiar. Tombo para trás, deitada.
Meus olhos tentam se fixar no teto que roda acima de mim, mas minhas pálpebras pesadas e ásperas traem-me… Sinto-as como se rasgassem minhas pupilas.
- alguém… Socorro – balbucio com esforço nítido.
Uma voz feminina ecoa distante:
- liguem pro socorro! Ela está tendo uma convulsão.
Posso ver rostos angustiados observando-me… Eles seguram meu corpo sem saber que o toque de suas mãos queimam minha pele.
Parem! Vocês não estão me ajudando! – eu tento dizer, sem sucesso.
Não tenho domínio sobre minhas ações e, aos poucos, um véu preto cobre meus olhos.
Escuridão.
Será que estou morta? Um calafrio percorre minha espinha, fazendo-me gelar…
‘’Abra os olhos Jéssica’’
- Amanda, acorde! – Uma garçonete com quem eu costumo conversar grita para mim.
Minha visão ainda está embaçada, mas consigo vê-los à minha volta. Um cheiro doce e apimentado adentra minhas narinas e cavalga por meu corpo, rasgando meu estomago tão selvagem e intensamente que me faz gritar.
Eles afastam-se de mim com um olhar assombrado, dizendo coisas sem sentido.
‘’O que está acontecendo? Não entendo o que estão falando!‘’
Será que estou sonhando? Isso se parece muito com um sonho…
Minha cabeça dói e meu estômago dilacera meu interior. Eu sinto raiva, fome, sede, ódio… Não consigo me controlar.
Minha visão finalmente começa a adaptar-se, mas onde estão as cores? Tudo que vejo são tons de cinza, preto e branco. Vou enlouquecer. Mexo meu corpo desesperadamente a fim de levantar-me e sair desse lugar maluco e de perto dessas pessoas inúteis e retardadas que nada fazem por mim.
- Eu vousodfrrr.
Eles me encaram e gritam… Não entendo nada! Como isso é possível?
- Me ajuddddsmrrr!
Minhas mãos agarram os cabelos e orelhas de um asiático que passa ao meu lado.
- Aaaarrrh
Uma das orelhas que puxo desgruda-se do rosto dele e rapidamente a levo até minha boca.
Eles tentam tira-lo de minhas garras, mas eu os afugento com urros que nem mesmo sei de onde vem… A carne que mastigo enquanto esmurro e abato minha refeição é maravilhosa, tão divina e viciante que não consigo pensar em nada que possa se comparar. Isso me faz bem!
- AAAAAAHRRHR
A cada pedaço que engulo meu corpo agradece diminuindo minhas dores e revigorando-me, mas eu sinto que preciso de mais e mais. Raiva e ansiedade dançam com minhas entranhas.

‘’O que me tornei?’’

Fernanda Oz