Complexo do Alemão

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O tiroteio começou.
O barulho ensurdecedor estremecia Carolina dos pés à cabeça. Sua irmã, Priscila, agarrava Rosa, sua mãe, chorando e gritando. A porta da pequena casa no centro do Complexo do Alemão era esmurrada e empurrada com força. O pai, para proteger a família, correu até o armário da cozinha e armou-se com um facão que costumava usar para cortar a carne dos churrascos de domingo.
- Vão pro quarto! – gritou para a esposa e filhas. As três correram e se abaixaram ao lado da cama.
Gritos e tiros se misturavam em uma sinfonia amedrontadora, mas já conhecida. Um estouro e elas puderam ouvir a porta da casa sendo arrombada. O pai gritou e após alguns segundos tudo tornou-se silencioso. Os olhos de Carolina se encontraram com os da mãe.
- Pai… – ela sussurrou, mas foi interrompida por uma voz que implorava por socorro.
Levantou num pulo e, ignorando as ordens da mãe, caminhou apressadamente até o outro cômodo. Deparou-se com o pai estirado no chão e um homem sobre ele. Havia muito sangue pelo local, a faca que seu pai segurava estava caída perto da porta e, pendurada nas costas do homem, uma AK47. Carolina sentiu o corpo gelar.
- Carol… – seu pai pronunciou com nítido esforço – sai daqui… Leva sua mãe… Sua irmã… Farol…
Sangue escorria de sua boca enquanto falava. Carolina aproximou-se mais ainda.
- Não! Para com isso, por favor! – gritou para o homem que feria seu pai.
Sua mãe e irmã correram até o local e gritaram ao ver a cena. O homem com a AK47 lentamente ergueu o rosto e mostrou a face ensanguentada e torcida em ódio e terror. Rosnou para elas e começou a levantar, cambaleante.
O pai jazia com os olhos fechados, a barriga aberta e expondo as tripas e carnes vermelhas. Rosa vomitou. Priscila chorava cada vez mais alto. Tomada pelo sentimento de raiva, Carolina correu até a porta e apanhou a faca, suas mãos tremiam tanto que precisou usar toda sua força para segurar o objeto e enfiá-lo nas costas do homem que estendia as mãos sujas para sua mãe e irmã.
A faca deslizou com dificuldade pelo corpo. A garota a puxou de volta. O homem virou-se para Carolina e soltou um urro grotesco, saltando sobre ela. Os dois rolaram pelo chão, caindo em cima do cadáver e espalhando seus órgãos ao redor. Rosa atirou-se sobre o homem e, podendo mover-se com mais facilidade, Carolina afundou a faca na cabeça do maldito, perfurando seu olho esquerdo. Imediatamente ele parou os movimentos, como se houvesse sido desligado.
Antes que pudessem tomar qualquer atitude, uma mulher com a mesma feição atormentadora entrou pela porta aberta e se jogou contra Rosa. As duas travaram uma briga de braços, esbarrando nos poucos móveis da casa, derrubando os quadro da parede e os vasinhos de flores da janela. Agachada em um canto, Priscila assistia a cena e chorava, pequena demais para fazer outra coisa.
Em meio ao caos, Carolina rastejou até o cadáver do homem que matou e tomou para si a grande arma.
Nunca havia manuseado armas de fogo, tampouco matado alguém antes desse dia, mas não sentiu medo ou remorso. Apontou para a mulher, mas ela e sua mãe giravam de um lado para outro, tornando impossível qualquer tentativa de mira.
- Mãe, fica parada! Segura ela pra mim – gritou.
Rosa empurrou a mulher contra a parede e lançou todo peso do corpo para segurá-la.
- Rápido, Carol, rápido! Não vou conseguir segurar essa desgraçada muito tempo!
E encostando o cano na cabeça da mulher, apertou o gatilho.
O estrondo foi alto. A cabeça da criatura estourou e espalhou miolos pela parede e em Rosa, que tornou a vomitar. O coice da arma derrubou a garota no chão e machucou seu braço, mas ela quase não sentiu a dor, pois o medo tomava conta de todos os seus sentidos.
- Mãe – falou enquanto Rosa acalmava Priscila e limpava o sangue no próprio rosto – precisamos sair daqui…
O barulho dos tiros havia cessado, mas ainda podiam ouvir os gritos vindos de todas as direções.
- O que nós vamos fazer? – as lagrimas enchiam os olhos de Rosa.
- Vamos sair daqui. Depois a gente decide o que faz.
Sem qualquer preparo ou plano, Carolina apoderou-se da arma e da responsabilidade de manter sua família viva. A favela havia aguentado a infestação durante quatro semanas, mas ela sabia que a praga chegaria até eles um dia, e agora que havia acontecido, ela precisava ser forte e lutar.
- Vamos para o farol.
Fim.
Texto de: Fernanda Oz
Arte de: Celso Ludgero

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