Complexo do Alemão

PM_conto2
O tiroteio começou.
O barulho ensurdecedor estremecia Carolina dos pés à cabeça. Sua irmã, Priscila, agarrava Rosa, sua mãe, chorando e gritando. A porta da pequena casa no centro do Complexo do Alemão era esmurrada e empurrada com força. O pai, para proteger a família, correu até o armário da cozinha e armou-se com um facão que costumava usar para cortar a carne dos churrascos de domingo.
- Vão pro quarto! – gritou para a esposa e filhas. As três correram e se abaixaram ao lado da cama.
Gritos e tiros se misturavam em uma sinfonia amedrontadora, mas já conhecida. Um estouro e elas puderam ouvir a porta da casa sendo arrombada. O pai gritou e após alguns segundos tudo tornou-se silencioso. Os olhos de Carolina se encontraram com os da mãe.
- Pai… – ela sussurrou, mas foi interrompida por uma voz que implorava por socorro.
Levantou num pulo e, ignorando as ordens da mãe, caminhou apressadamente até o outro cômodo. Deparou-se com o pai estirado no chão e um homem sobre ele. Havia muito sangue pelo local, a faca que seu pai segurava estava caída perto da porta e, pendurada nas costas do homem, uma AK47. Carolina sentiu o corpo gelar.
- Carol… – seu pai pronunciou com nítido esforço – sai daqui… Leva sua mãe… Sua irmã… Farol…
Sangue escorria de sua boca enquanto falava. Carolina aproximou-se mais ainda.
- Não! Para com isso, por favor! – gritou para o homem que feria seu pai.
Sua mãe e irmã correram até o local e gritaram ao ver a cena. O homem com a AK47 lentamente ergueu o rosto e mostrou a face ensanguentada e torcida em ódio e terror. Rosnou para elas e começou a levantar, cambaleante.
O pai jazia com os olhos fechados, a barriga aberta e expondo as tripas e carnes vermelhas. Rosa vomitou. Priscila chorava cada vez mais alto. Tomada pelo sentimento de raiva, Carolina correu até a porta e apanhou a faca, suas mãos tremiam tanto que precisou usar toda sua força para segurar o objeto e enfiá-lo nas costas do homem que estendia as mãos sujas para sua mãe e irmã.
A faca deslizou com dificuldade pelo corpo. A garota a puxou de volta. O homem virou-se para Carolina e soltou um urro grotesco, saltando sobre ela. Os dois rolaram pelo chão, caindo em cima do cadáver e espalhando seus órgãos ao redor. Rosa atirou-se sobre o homem e, podendo mover-se com mais facilidade, Carolina afundou a faca na cabeça do maldito, perfurando seu olho esquerdo. Imediatamente ele parou os movimentos, como se houvesse sido desligado.
Antes que pudessem tomar qualquer atitude, uma mulher com a mesma feição atormentadora entrou pela porta aberta e se jogou contra Rosa. As duas travaram uma briga de braços, esbarrando nos poucos móveis da casa, derrubando os quadro da parede e os vasinhos de flores da janela. Agachada em um canto, Priscila assistia a cena e chorava, pequena demais para fazer outra coisa.
Em meio ao caos, Carolina rastejou até o cadáver do homem que matou e tomou para si a grande arma.
Nunca havia manuseado armas de fogo, tampouco matado alguém antes desse dia, mas não sentiu medo ou remorso. Apontou para a mulher, mas ela e sua mãe giravam de um lado para outro, tornando impossível qualquer tentativa de mira.
- Mãe, fica parada! Segura ela pra mim – gritou.
Rosa empurrou a mulher contra a parede e lançou todo peso do corpo para segurá-la.
- Rápido, Carol, rápido! Não vou conseguir segurar essa desgraçada muito tempo!
E encostando o cano na cabeça da mulher, apertou o gatilho.
O estrondo foi alto. A cabeça da criatura estourou e espalhou miolos pela parede e em Rosa, que tornou a vomitar. O coice da arma derrubou a garota no chão e machucou seu braço, mas ela quase não sentiu a dor, pois o medo tomava conta de todos os seus sentidos.
- Mãe – falou enquanto Rosa acalmava Priscila e limpava o sangue no próprio rosto – precisamos sair daqui…
O barulho dos tiros havia cessado, mas ainda podiam ouvir os gritos vindos de todas as direções.
- O que nós vamos fazer? – as lagrimas enchiam os olhos de Rosa.
- Vamos sair daqui. Depois a gente decide o que faz.
Sem qualquer preparo ou plano, Carolina apoderou-se da arma e da responsabilidade de manter sua família viva. A favela havia aguentado a infestação durante quatro semanas, mas ela sabia que a praga chegaria até eles um dia, e agora que havia acontecido, ela precisava ser forte e lutar.
- Vamos para o farol.
Fim.
Texto de: Fernanda Oz
Arte de: Celso Ludgero

70 mil sobreviventes

A cada like que recebemos um novo sobrevivente entra em nosso grupo. Nosso acampamento já abriga mais de 70 mil pessoas (CHUPA WOODBURY). Agradecemos de coração cada um de vocês, velhos e novos seguidores de Planeta Morto. A interação de vocês com a gente é o animo que temos para produzir sempre melhores capítulos, por mais demorados que sejam (sim, é chato esperar, mas não temos jeito) e trazer conteúdos originais e principalmente mostrar que o Brasil pode sobreviver, SIM, ao apocalipse zumbi

Elisa_70k

História especial de fim de ano – 2013

natalzumbi3

PAPAI CRUEL

Sempre que lhe perguntavam o motivo que o fazia aceitar encarnar o bom velhinho no fim de cada ano, ele respondia: Eu gosto de ser uma celebridade.
Acomodou-se na poltrona vermelha, como de costume. As luzes natalinas piscando em um ritmo estranho, giratório.
A primeira criança aproxima-se. Um garotinho de cabelos pretos. Sua pobreza é clara. Não está acompanhado por nenhum adulto. Veio sozinho, curioso e corajoso, conhecer o tão famoso velho de barba branca e gorro vermelho.
Ele estende a mão para o menino. Uma tontura o atinge no rosto como uma onda de areia, empurrando-o para trás. Bate as costas na poltrona, totalmente desengonçado pelo subido mal-estar.
O garoto aproxima-se mesmo assim. Receoso, encara o homem com os olhos bem atentos. O coração bate tão forte no peito que parece querer explodir. Ouvira sua mãe dizer que as crianças comportadas eram recompensadas com a realização de um pedido.
Havia se comportado bem durante todo ano e, nos últimos meses, pensou muito, em absoluto segredo, sobre esse tal pedido… Se realmente fosse verdade, ele faria qualquer coisa para conseguir esse presente.
Caminhou durante muito tempo para chegar ali. Nunca esteve tão nervoso e feliz como agora.
O velho forçou, quase em vão, os sentidos a voltarem ao normal, chamando pelo menino.
- Vem, meu filho, senta aqui comigo. Você… Você se comportou esse ano? Qual é… Qual é o.seu.pedido?
Sua fala saiu falhada e confusa. As outras pessoas na fila de espera à sua frente, adultos e crianças, o observam com curiosidade distraída. Alguns pequenos choram no colo dos pais. O barulho do choro lateja sua cabeça.
O menino aproximou-se mais ainda, sendo puxado para o colo do velho. Ficou mudo, paralisado como uma pedra. Travado e muito acanhado. Estava com vergonha de fazer seu pedido…
O velho pigarreou.
- Você… tem… algum pedido especial…? – um fio de sangue escorreu pelo canto de seus lábios ressecados enquanto falava. Os olhos não focavam em nenhum ponto especifico, mas pareciam pairar dentro das orbitas oculares. A face contorcendo-se.
- É… Sim. – o menino falou com certa dificuldade – Eu quero muito ganhar uma… – mas o homem não entendeu as ultimas palavras ditas.
Tentou levantar e se desculpar com todos, dizer ao garoto que falaria com ele quando se sentisse melhor, que escutaria seu pedido e anotaria em sua agenda especial, mas uma dor profunda e aguda como uma facada atingiu seu estomago. Os dentes rangeram em um bruxismo insistente. Apertou os olhos e gritou por ajuda.
A criança ainda permaneceu em seu colo, imóvel.
Olhou ao redor e uma bagunça de passos e empurrões estava formada.
‘’O que está acontecendo?’’
Repetiu a frase mentalmente até perder o foco dos pensamentos.
Olhou para seu colo e a cor vermelha era tudo que se destacava. Sangue por toda parte. Gritos completando o cenário obscuro que começava a nascer e as luzes natalinas não param de piscar.
Uma criança despedaçada em seus braços, por suas mãos, seus dentes, sua doença. O rosto do pequeno retorcido com a dor da morte.
Nenhuma memória ou sentimento de culpa para o velho. Apenas a dor angustiante que é aliviada com o sangue e carne de sua vitima.
A doença o transformou por completo. Primeiro atacou sua mente e, quando tomou o controle de seus sistemas, a luta foi ganha.
Quase não lutou, o fraco homem. Já não tinha cabeça boa para isso.
E o garoto, no fim das contas, não havia se comportado tão bem assim.

História Paralela nº 8

whisky2

Glauber – Maranhão

As mãos tremem. Mal consegue segurar o copo. A cada batida nas portas as mãos tremem mais.
Seu pai deve estar orgulhoso de você, Glauber. Ele sempre dizia “Filho, não tenha medo. O medo encolhe as bolas”. Mal sinto minhas bolas agora…
Já mijei e caguei o chão todo do bar. O fedor é sufocante. Três dias enclausurado num boteco, sem dormir, sem comer… Só esperando a hora que essas criaturas malditas vão estourar a porta. A barricada não vai aguentar por mais tempo.
Esses malditos simplesmente brotam. A rua está tomada. Os bastardos de merda me olham pela fresta da janela desejando minha carne. Seus olhos parecem bolas de fogo vindas do inverno, refletindo duas coisas: fúria e fome.
O calor aqui é dentro é infernal. Embora seja dia, mal vejo a luz do sol. Ela está lutando por um espaço na fresta da janela.
Eu devia aproveitar as facas na cozinha e me matar. Acabar logo com essa merda. Por fim nessa agonia…

Calma, Glauber! Entrar em desespero é a pior coisa. No desespero somos pegos de surpresa… Calma? Você não percebe a situação, idiota? Tá vendo aquela porta ali na lateral? Ela não tem chave, não tem trinco… Só uma cadeira safada está encostada na maçaneta. Igual o que você fez nos dois banheiros, Glauber. Percebe a situação? Lá fora tem centenas de “zumbis”, tem mais um em cada banheiro desse boteco imundo e, o que te manteve vivo, esses três dias, foram três cadeiras mal encostadas. Ou você é um filho da puta muito sortudo, ou Deus tem um ódio desgraçado de você pra te deixar nessa situação.

George Romero, seu filho da puta safado. Deve estar se deliciando com essa carnificina sem sentido. Tomara que o inferno lhe dê as glórias de merda, com uma coroa fétida e cheia de espinhos de ferro e que seja bem justa pra rasgar sua carne com louvor. Você não sabe o que é ver uma gestante ser aberta como embalagem de salgadinho. Não sabe como é ver o feto sendo devorado por essas crias do mal. Você nunca vai saber qual a sensação de usar uma grávida como escudo…
Alguns dizem que você foi uma espécie de profeta, pra mim sempre será um louco.

Olha pra você, Glauber. Todo cagado e mijado, jogado no chão. Três dias assim. Sem dormir, de tanto medo. Sem comer, com medo de ir até o balcão e pegar alguma coisa bem gordurosa, só pra sentir o gosto de gordura enchendo a boca. Mas não. Você pegou uma porra de um copo de uísque e não tomou nem um gole. Tá segurando esse copo como alguém segura as próprias bolas depois de um chute. Tá há três dias com esse copo na mão. Você é um merda. Uma menininha chorona. Chorando igual um veadinho… Que belo monte de merda você se tornou. E ainda se achava o ser supremo lecionando história da arte.

Já pensou na família da grávida que você atirou pra esses cães do demônio? Já se perguntou se ela estaria bem agora? Parou pra imaginar se ela faria o mesmo com você? Você é podre, Glauber. Merece morrer. Merece ser esquartejado e jogado no chão pra ser pisado. Nem como comida você serve. É desumano, mesquinho e ainda deu pra falar sozinho… Tomara que tenha uma morte fria e lenta, tomara que alguma dessas cadeiras caia e que você seja trucidado pelo que fez àquela mulher.

Ouviu isso?
Não é sua imaginação. É real.
É, Glauber… Acabou de se foder. Parece que o Diabo te ouviu. A cadeira na maçaneta do banheiro feminino caiu… Onde está seu deus agora?
Você não consegue nem se mexer. É uma vergonha pra humanidade.

Olha pra ela, Glauber. É uma gestante. Que ironia, não? Vai matar essa também? Você tem colhão pra isso? Não. Você é frouxo, mas ela não. Ela te ouviu esse tempo todo. Será que ela tem alguma consciência? Se ela tiver, você vai sofrer mesmo, seu verme imundo.
Olha como ela caminha devagar… O vestido todo rasgado e sujo de vômito. Ela deve ter tentado se comer naquele banheiro fétido. Mas agora ela encontrou você.
Fúria e Fome.

Vai fazer o que? Fugir? Pra onde? Você sequer consegue mover o copo.

- O… Olha, moça… – ‘’Acha que ela está te escutando?’’- Eu… Eu… Eu não fiz por mal… Eu juro. – ‘’Para de chorar e seja homem, porra!’’ – Eu não sabia o que fazer… Tava com medo… Me perdoa.

Fúria e Fome, Glauber. É só o que ela sabe.

Ela tá cada vez mais perto. Não tira os olhos de você.

Que merda de vida sem sentido. Estou prestes a morrer e a única coisa que me vem à cabeça é cantar. E a única música que me vem à cabeça é “Cielito Lindo”.

“Ese lunar que tienes, Cielito Lindo, junto a la boca,
No se lo des a nadie, Cielito Lindo, que a mi me toca,
Ay, ay, ay, ay, canta y no llores,
Porque cantando se alegran,
Cielito Lindo, los corazones.
Ay, ay, ay, ay, canta y no llores,
Porque cantando se alegran,
Cielito Lindo, los corazones.”

Não me lembro do resto da música. Que se foda! Ela já está aqui me olhando e rosnando. Tem um braço todo putrefato saindo da barriga dela. Está se mexendo. E eu aqui, sorrindo como um idiota.
Se tá no inferno, abraça o capeta.

Leonardo Favaretto

História paralela nº 7 parte 2 (final)

 

mendigos-11

Parte Dois

As ruas à minha frente estavam vazias. Pude correr sem maiores complicações até perceber que estava novamente no viaduto do chá. Resolvi atravessá-lo.
Parei de correr e tomei ar. Dois dias sem urbanização e o oxigênio já estava diferente, mais leve… Admirei a vista lá do alto.
Magnífica. São Paulo é incrível, mas quase não notamos. Uma selva de concreto.
A paisagem era hipnotizadora. Uma cidade adormecida, pintada por fracos e brilhantes raios de sol.
Lá em baixo, à esquerda, nada. Nenhuma alma pra contar história, mas, pela direita, tomando o mesmo caminho que eu havia tomado, os primeiros fardados começavam a aparecer. Montados nos grandes cavalos que carregavam aquela carroça estranha cheia de cadáveres, eles já não pareciam estar fugindo.
Outros, desmontados, chegaram depois deles. Com uma grande movimentação e alguns gritos de comando, abaixaram o compartimento com os corpos e então fizeram algo que mexeu com a minha cabeça…
De dois em dois, formaram uma fila. Cada dupla pegava um corpo e então o carregavam além da esquina, onde eu não podia ver o que acontecia, mas aos poucos, a circulação foi se acalmando.
Fizeram isso, um a um, até que todos os corpos haviam sido levados.
Tenho sorte por não ter visto o que estavam fazendo com toda aquela gente morta… Minha imaginação já era perturbadora o suficiente.
Sai do transe e corri até o final do viaduto, não fiquei para ver o fim do show…
Sabe, ninguém me tira da cabeça que algo horrível aconteceu ali… O estado daquelas pessoas mortas era saudável demais para estarem contaminadas. Eu acredito, sem maiores expectativas, que foram usados como ‘’isca’’ contra as coisas que os perseguiam… Como um maldito pedaço de carne para um cachorro bravo. Não existe outra explicação, existe?
Eram poucos corpos para formar uma barricada eficiente…
Não cheguei a vê-los, mas pude ouvi-los e senti-los… Estavam lá.
Aliás, o fedor deles pode ser sentido de longe. Uma mistura de mijo e merda cinco vezes mais forte do que no mendigo mais sujo que já conheci.
Seja lá o que os milicos fizeram, parece ter funcionado.
Após mais algumas horinhas andando sem grandes acontecimentos, cheguei a acreditar que as coisas não estavam tão ruins assim, mas como nada que é bom dura muito, eu tive que cruzar aquela maldita rua.
O corpo inerte e seminu daquela mulher, a enorme poça de sangue ao redor de seu quadril e… Prefiro não lembrar…
Eu posso suportar quase tudo nessa vida, mas quando se trata de crianças, eu sou um fraco.
Acredite, aquela cena mexeu comigo por dentro. Naquele momento tive certeza que uma parte importante de mim foi arrancada, e o mundo perdeu o resto de sentido que ainda possuía.
Corri para longe de lá, as lagrimas quentes escorrendo secavam rapidamente com o vento forte que soprava. O sol estava se pondo e as sombras começavam a cair sobre os edifícios.
Procurei por um prédio aparentemente convidativo onde pudesse passar a noite, e acabei escolhendo essa loja de roupas. Era o único lugar que não estava saqueado ou destruído.
A grande porta de vidro estava destrancada, então entrei silenciosamente… Olhos e ouvidos atentos a qualquer sinal de perigo e a amiga faca na mão.
Área de roupas, ok. Balcões, ok. Provadores, ok. Banheiros, ok.
Parei uns segundos para admirar o lugar. Fazia anos que não entrava em lugares como esse… Não somos bem vindos.
Pois bem, tudo limpo na parte de baixo do prédio. Subi o lance de escadas enquanto os últimos raios de luz iluminavam vagamente o local.
No segundo e último andar, um corredor extenso e estreito, com duas portas fechadas na lateral esquerda e quatro janelas abertas na direita.
Grudei a orelha na primeira porta, nenhum barulhinho se quer… Minhas mãos suavam muito, e fui obrigado a seca-las, esfregando-as na calça. Segurei a maçaneta e hesitei uns instantes. Aquilo tudo era muito estranho. Me sentia numa cena de filme, onde o personagem entra em lugares que deveriam permanecer vazios e se depara com o monstro. Era ridiculamente assustador.
Reuni coragem e abri a porta de uma vez, dando um pulo para trás e levantando a faca.
A sala estava vazia. Digo, desabitada. Apenas duas mesas de escritório, com computadores, impressoras e papéis empilhados. Uma cafeteira e um pequeno sofá de couro preto com revistas em cima.
Suspirei aliviado, quando uma pancada na sala ao lado me fez saltar de susto.
Pesei os passos até o corredor e fiquei de frente para a porta trancada que separava a morte de mim.
Meu cérebro trabalhou a todo vapor, enviando muitas informações para o meu corpo e mente, praticamente enlouquecendo-me. Dei um tapa em minha própria cabeça, forçando meus sentidos a se acalmarem.
Eu precisava encarar e resolver o problema, ou então mais deles seriam atraídos até mim.
‘’Vamos lá, você sabe o que tem que fazer! Você consegue. É só abrir a porta e acertar esse filho da puta na cabeça. Você já fez isso antes, lembra? Você consegue!’’
Repeti a frase mentalmente pelo menos dez vezes.
O pânico tentava me dominar e eu estava quase perdendo a luta.
Com a mesma coragem de um suicida, abri a porta com violência e esperei o maldito aparecer.
Vinte segundos pareceram anos, e nada aconteceu.
Foi então que adentrei o recinto, bufando feito um touro e preparado para matar novamente, e vi você.
Deitado no canto ao lado do sofá, encolhido como um tatu-bola.
- Ainda bem que você chegou, pensei que ficaria sozinho pra sempre…
- É, parece que você e eu somos rapazes de sorte, não é mesmo, mocinho?
- Eu não tenho sorte, tio Toni. Eu vou morrer.
- Todos morrerão um dia, André. Uns vão mais cedo que os outros, mas todos terão o mesmo destino final. – Toni segurou a mão do pequeno garoto. Não conseguiu evitar o choro. Conhecia tão pouco aquela criança, apenas dois dias desde que o encontrou, mas sentia-se profundamente ligado a ela. Um pequeno guerreiro, que passou por coisas que ninguém deveria passar, principalmente alguém tão jovem e inocente como ele. Sobreviveu sozinho por quatro noites, e morreria sozinho também, mas agora ele estava ali, e velaria os últimos instantes de André.
- Posso fazer um pedido, como se hoje fosse o meu aniversário?
- É claro que você pode, desde que não seja um bolo… Eu não sei cozinhar – Toni fez o pequeno gargalhar, mas seu corpo estava tão danificado internamente que acabou tossindo sangue.
- Se você contar sua história pra outra pessoa, eu posso fazer parte dela?
Um nó formou-se na garganta do andarilho, e o mundo ao seu redor parecia girar como um daqueles brinquedos de parque de diversão. Queria gritar e amaldiçoar Deus por tamanha crueldade, mas conteve-se.
- Claro… – engasgou ao falar – Claro que pode. – o choro descia inevitável – Você fará parte da minha história, tenha certeza disso, garotão!
André sorriu e imaginou-se na história de Toni, e ficou feliz por isso. Adorava histórias e sempre quis fazer parte de uma. Sonhava em ser um grande escritor um dia.
Encarou o ultimo rosto que veria e fechou os olhos, e então, mais uma vez, Toni estava sozinho.
Sem esperança, sem rumo e sem amparo.
Apenas um ninguém que carregará a vida e a morte nas costas, até sua própria história chegar ao fim.

Fernanda Oz

 

Carlos

CArlos_net

Carlos

Encolhido ao lado do pequeno sofá de couro preto, Carlos está com o rosto completamente curvado, o que faz com que as lágrimas quentes caiam direto sobre o jeans de sua calça ou sobre o chão, sem antes escorrer por seu rosto.
No canto oposto da sala, perto da grande porta de vidro manchada de sangue, o corpo inerte de Letícia enfeita a sala, combinando com as fotos penduradas na parede do que um dia foi um casal feliz. Carlos prende a respiração por alguns segundos e processa sua realidade atual. Acabara de matar sua noiva, a única mulher importante em sua vida depois que sua mãe faleceu quando ele ainda era garoto. A confusão em sua mente começa a tomar forma, e Carlos percebe que precisa apagar essa parte de sua vida e se encaixar novamente no mundo, ou então será apenas mais um deles, apenas mais um mordedor inútil na multidão.
Não pensou em vingança, afinal ela transformou-se numa dessas coisas sem motivo aparente e provavelmente a maioria dos outros coitados também, mas prometeu, ajoelhado rente ao corpo de sua Letícia, que jamais substituiria seu lugar. Beijou-lhe os lábios gélidos e acariciou seus cabelos longos cabelos macios pela ultima vez. Ultrapassou a porta e não olhou para trás.
Esse mesmo homem em luto deu inicio ao movimento rebelde que lentamente tomou dimensões assombrosas e, ao seu comando, começou uma perigosa batalha contra a autoridade do escasso governo.
Carlos, jovem e respeitado líder, terá suas emoções e esforços abalados com a chegada de Elisa e seu inofensivo grupo.
Façam suas apostas.

Fernanda Oz

 

Logotipo

O código de barras usado no logotipo da HQ representa o fim de uma sociedade materialista. Precisamente, o código representa o fim de nossa sociedade atual, consumista, mesquinha, gananciosa, individualista…
O fato de o código estar desgastado diz respeito ao desgaste que sofremos ao longo de gerações e não percebemos. Alguns de nós passaram a amar o dinheiro mais que suas próprias vidas, esquecendo o que realmente vale a pena e deve ser apreciado.
Mas, apesar de tudo isso, o código ainda está ali…
Ele serve como lembrança e aviso: em Planeta Morto, muitos morreram por avareza, pois não conseguiram se desapegar da vida material, nem quando isso implicava sua própria existência.
Um pedaço de pão velho vale mais que todo dinheiro do mundo, e toda riqueza de ouro e prata não são mais importantes do que ter um par de sapatos surrados nos pés.
Todo mal tem seu bem. E a lei do mais apto se sobressai.

“Não é a mais forte das espécies que sobrevive, nem a mais inteligente, mas aquela que melhor reage à mudança.”

Estamos preparados para essa mudança?

Planeta_Morto_descontrucao2

História Paralela nº 7

mendigos-11

São Paulo – Capital

- Andarilhos, ciganos ou, como eles costumavam nos chamar em ocasiões formais, sem-teto. Meu nome era ninguém, mendigo excluído sem norte e pretensão. Mas aqui entre nós, eles não sabiam de nada. Eis a minha história: Eu tinha um teto novo todos os dias, um norte sem capitalismo e a pretensão de um bebê que dorme no colo da mãe.

 Lembro-me da primeira vez que os vi pessoalmente, de longe… Rápidos, iam deixando um rastro de destruição por onde passavam. O velho galpão do viaduto do chá que servia sopão estava aberto e, junto de mais alguns, fiquei protegido, por sorte ou destino, do farejar daquelas coisas. Passei a noite por ali, encolhido em um canto do pequeno salão filantrópico, mudo, resgatando fragmentos de memórias que a muito havia decidido esquecer.

Foi uma noite longa, daquelas que o sono parece evitar chegar. Mas acabou chegando.

Quando acordei e lentamente abri os olhos, fui golpeado pela claridade estridente da manhã que entrava pela única abertura do lugar. Por incrível que pareça, todos haviam partido sem nem mesmo a decência de fechar a merda da porta…

 Por quanto tempo eu dormi exposto daquele jeito? Realmente não faço ideia, mas o que mais me irritava era o fato de ter sido abandonado ali como se não fizesse diferença. Abandonado por pessoas que eram tão invisíveis quanto eu, miseráveis o mesmo tanto…

Deixando a humilhação de lado, me esgueirei depressa até o canto mais escuro do galpão, perto da porta aberta, e esperei pelo pior. Por um bom tempo fiquei assustado demais para mexer um músculo se quer, sentindo falsa segurança naquela frouxa escuridão…

 O único barulho que eu ouvi durante alguns minutos era meu estomago faminto. Tomei coragem e levantei, com dificuldade, pois minhas pernas estavam dormentes, e fui até a mesa onde a panela de sopa estava estacionada.

Comida fria nunca foi tão boa, pode acreditar.

Munido de uma faca doméstica que encontrei na prateleira, fiz o mesmo que os outros e sai dali. As ruas estavam solitárias e monótonas, bem diferentes do normal. Andei um bocado sem problemas até avistar um deles. Um homem, mais ou menos da minha altura, de roupa social e rosto ensanguentado. Executivo ou gênero parecido. Ele saiu de trás de um Meriva vermelho que estava parado no meio da avenida e veio correndo em minha direção. Quando me dei conta do que estava acontecendo não pude mais correr, pois o maldito já estava muito perto. Com a agilidade de um susto, segurei a pequena faca com força e cravei em seu peito. Ele pareceu quase não sentir, mas isso me deu alguma vantagem. Repeti o mesmo golpe algumas vezes e em lugares diferentes de seu corpo, dessa vez com mais força, sentindo a carne dura sendo perfurada pela lâmina que minhas mãos manuseavam, vendo o sangue escuro escorrer pelos buracos que eram feitos… Enfim ele caiu.

Não caiu pelos golpes, mas pelo peso do meu corpo contra o dele.

 Parti para cima, desferindo mais algumas facadas, dessa vez em sua maldita cabeça. Só parei quando tive certeza que ele não levantaria mais.

É uma sensação inexplicável, sabe? Passei algum tempo tremendo e remoendo o fato de ter matado alguém, mesmo alguém como ele. Liberta ao mesmo tempo em que crucifixa…  Você age por sobrevivência, no ímpeto de passar mais algumas horas por aqui, mesmo que mal e parcamente. Mas de viver mal e parcamente eu entendo bem, né?

Fugi o mais rápido possível, tentando não encarar o cadáver estirado ao chão que aos poucos ia ficando para trás.

Conforme corria, uma sirene gritava em minha mente, tão alta que cheguei a questionar se era apenas imaginação. Era mais que imaginação… Um aviso dos meus instintos, na verdade.

As ruas do centro de São Paulo estavam vazias demais, desertas como uma cidade fantasma. Desde que o caos havia começado, um ou dois dias atrás, isso não havia acontecido. Elas estavam sempre lotadas deles… Algo estava errado, eu podia sentir.

A sirene em minha cabeça me manteve atento. Logo comecei a me pressionar.

Para onde, diabos, eu iria?

O que faria?

A solidão nunca foi tão desesperadora. Apesar de não ter ninguém, sempre tive todo mundo… O barulho dos carros, dos passos, das vozes. A correria do cotidiano era confortável, diria que até mesmo amigável. Mas ali, nada. O ultimo homem racional da Terra.

Pelo menos era o que eu pensava.

O silencio sepulcral foi quebrado pelo trotar da cavalaria. Sem saber de quem e de onde o som vinha, corri com o rabo entre as pernas e me escondi atrás de um pequeno caminhão atolado na calçada. Espiei como pude e presenciei a cena mais gloriosa que já havia visto até aquele momento.

Centenas de homens armados, montados em cavalos fortes e imponentes, seguiam para algum lugar. Um verdadeiro exercito moderno. Aos meus olhos, salvação.

Mas, conforme iam passando, pude reparar em seus rostos. Estavam apavorados.

Se o medo tem um rosto, aqueles homens já o viram.

Apesar de tudo isso, achava que era melhor estar com eles do que só. Eu não iria muito mais longe despreparado como estava. Não queria continuar sozinho. Algo em mim ansiava pela presença humana alheia… Algo primitivo, creio eu. Uma vez li que o homem é um ser sociável, uns mais que os outros, mas ainda assim todos.

Eles estavam fardados, e em sua farda estava o dever de ajudar a população, pelo menos em teoria… E eu era a única população ali, infelizmente.

Mas, durante o tempo em que me perdi com pensamentos, algo maior se aproximou.

Outro grupo de cavalos, maiores e mais fortes, arrastando um tipo de carroça improvisada e, dentro delas, dúzias de corpos.

Não eram dúzias de corpos deles, mas sim de corpos de pessoas saudáveis, como eu. Melhores que eu. Limpas, bem vestidas… Mulheres, crianças, homens e velhos. Todos mortos e amontoados.

Sem salvação.

O por que até hoje não sei, mas não dei a cara para descobrir. Certas coisas não devem ser descobertas, não é mesmo?

Por sorte não me viram. Seguiram em frente, até que o tiroteio começou.

Um coral de gritos masculinos se misturou com o relinchar dos animais e o estrondo das armas. Fiquei confuso por uns instantes, mas logo entendi.

Estavam sendo atacados.

Sai de trás do caminhão e corri, virando na primeira esquina que encontrei.

Corri como se não houvesse amanhã. Na verdade, não acreditava que veria o dia seguinte. 

…Continua.

Fernanda Oz